Viviane Rodriguez/Divulgação
Viviane Rodriguez/Divulgação

No Rio, Dom Salvador apresenta CD inédito

Em mostra instrumental, interpretou os temas de The Art of Samba Jazz

Lucas Nobile /RIO, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2010 | 00h00

Na virada da década de 1940 para a de 50, o quarteto As Irmãs Silva - anônimo na história da música brasileira até hoje - levava a vida em Rio Claro, no interior de São Paulo, cantando temas entoados pelos Anjos do Inferno, Quatro Ases e Um Coringa e pelo Bando da Lua. Elas e Paulo, que atacava no saxofone e depois no contrabaixo, influenciaram e descobriram que o irmão Salvador da Silva Filho levava jeito batucando na mesa. Foi o bastante para ele sair no carnaval e na rádio tocando repique. Depois, ainda foi ter aulas de bateria com o professor Emilio, que partiu para São Carlos, deixando o garoto sem um tutor musical. Ao léu nas baquetas, a opção foi aprender piano, mesmo sem ter o instrumento em casa.

Neste fim de semana, no Copa Fest, com quase meio século consagrado no meio musical como Dom Salvador, o início de sua vida musical na percussão mostrou-se novamente fundamental no tipo de som que ele faz ainda hoje. Aos 72 anos, em um show de mais de duas horas, Dom Salvador atestou ser um rei do ritmo, desfilando suas melodias e harmonias batucando no piano. Haja suingue.

Radicado em Nova York desde 1973 , fazia 45 anos desde a última vez que Dom Salvador havia tocado no Copacabana Palace. Na ocasião, o show marcava a despedida do amigo e baterista Dom Um Romão para os Estados Unidos. É difícil imaginar, mas o encontro conseguiu reunir Elis Regina, Jorge Ben, César Camargo Mariano, Paulo Moura, J.T. Meirelles e o Copa 5, Tenório Jr., o Zimbo e o Tamba Trio, além de outros músicos da pesada.

Até o início dos anos 1970, Dom Salvador já tinha tocado ao lado de toda essa turma e muito mais, carregando consigo o orgulho de ter participado do último disco gravado por Pixinguinha. Para se ter uma ideia, ali, pertinho do Copacabana Palace, em uma travessa da Rua Duvivier, no lendário Beco das Garrafas, ele acompanhou Elis Regina nas primeiras apresentações da cantora nos inferninhos como o Bottle''s, o Little Club e o Bacará.

Com tanta bagagem, impressiona que ainda hoje Dom Salvador mantenha uma simplicidade latente. Tem até vergonha de, durante o show, ter de anunciar ao público que na saída haverá venda de seu disco. "Fica meio estranho eu ficar me vendendo, falando de mim", diz em conversa com os músicos de sua banda.

Além do mito musical em que se transformou para diversas gerações, ele preserva há anos uma retidão de caráter. E, novamente, o bairro de Copacabana aparece em seu caminho. Nos anos 1970, o lendário cantor Mario Reis - grã-fino que revolucionou a maneira de cantar samba e morou no quarto 140 do hotel até sua morte - ofereceu uma bolada para Dom Salvador abandonar o conjunto Abolição, embrião do Black Rio, e acompanhá-lo em shows esporádicos. "Ele sacou um bolo de dinheiro do bolso, jogou no chão e disse: "quanto você quer?", eu respondi que não tinha nenhum contrato assinado, mas tinha um acordo verbal, que o negócio não era dinheiro", lembra o pianista ressaltando que sua única fidelidade e compromisso eram com a música.

Saindo do forno. No show, iniciado na noite de sábado e que invadiu a madrugada de ontem, acompanhado de seu competente sexteto, Dom Salvador tocou músicas já conhecidas de sua carreira - como Salvation Army, com direito a introdução em piano solo com Trenzinho Caipira, de Villa-Lobos, e a destacada e pegada Gafieira -, além de mostrar os temas de seu mais novo disco, The Art of Samba Jazz, ainda nem lançado nos Estados Unidos e ouvido em primeira mão pelo Estado.

No álbum, regravações da própria Gafieira e Depois da Chuva, registradas anteriormente no LP Rio Claro Suíte; Moeda, Reza e Cor, do clássico Som, Sangue e Raça (1971), com o conjunto Abolição e também Dom Salvador (1969), e Meu Fraco É Café Forte, do disco Rio 65 Trio (formação lendária com ele no piano, Edison Machado, na bateria, e Sérgio Barrozo, no baixo), além de outro belos temas, como Indian River e Para Elis, em homenagem a Elis Regina. "Compus essa música em 1968. Ia dar para o Agostinho dos Santos, mas nem tinha letra. Eu trabalhei com a Elis no Rio, que chegou a me mandar uma carta me convidando para acompanhá-la no Fino da Bossa, e sempre tive vontade de homenageá-la", diz Dom Salvador.

Hoje, ele reconhece que o cenário para a música instrumental anda melhor no Brasil. Há 37 anos nos Estados Unidos, tem mesmo vontade de passar uns dois meses anualmente no país onde nasceu, mas depende também das ofertas de shows. Com uma música que, impressionantemente, ainda soa pra lá de moderna, é esperar que a terra natal de Dom Salvador acorde para o privilégio que é tê-lo regularmente por aqui, como deixou bem claro o Copa Fest.

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