No real mundo mágico de Harry Potter

Não há dúvida que antes de visitar Harry Potter: A Exposição, a ser inaugurada terça-feira no Discovery Times Square, muitos Trouxas adultos pensarão como eu pensava. Cometi o equívoco de supor que o verdadeiro objetivo dessa mostra - de sets de filmagem, peças do figurino e objetos de cena -, estaria na última seção, onde os fãs de Potter fariam fila para gastar US$ 44,99 em réplicas da varinha mágica de Alvo Dumbledore ou US$ 49,99 em réplicas da gravata usada pelos alunos da casa de Grifinória, talvez para irem fantasiados à estreia do último filme da série nos próximos meses.

Edward Rothstein, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2011 | 00h00

As lembranças oferecidas podem ser úteis na luta contra mestres das artes das trevas, mesmo no mundo real. Claro que a varinha mágica não passa de uma réplica; ninguém espera encontrar uma varinha de madeira antiga com miolo feito do pelo do rabo de um testrálio por apenas US$ 44,99, certo? E as varinhas expostas, são de verdade? Bem, na verdade, sim. Tão autênticas quanto o modelo de pássaro usado para a animação de Fawkes, a fênix. E os óculos de Harry. E o ovo de dragão de Hagrid, que chacoalha a mesa no seu chalé. E as goles que os visitantes podem arremessar na galeria do Quadribol.

Se tudo isso soa tão obscuro quanto gritos de "Aparecium!" ou "Furnunculus!", você talvez passou a última década detido numa prisão como Azkaban enquanto os filmes sobre os bruxos de Rowling chegaram à língua franca dos Trouxas, lançando até hoje o feitiço "Immobilus" sobre leitores jovens e nem tão jovens assim.

Sem dúvida, um forte elemento comercial está presente na exposição; o ingresso custa para os adultos a considerável soma de US$ 25. O espetáculo foi criado pela Global Experience Specialists em parceria com a Warner Brothers Consumer Products. Cerca de 1 milhão de visitantes já viram a mostra desde 2009, quando começou a turnê nos museus científicos de Chicago e Boston, passando depois por Toronto e Seattle em 2010. Depois de setembro, o espetáculo vai para além das fronteiras dos EUA.

O assunto é levado muito a sério, demonstrando como um mundo imaginário é trazido à vida pela meticulosa atenção aos detalhes. O universo de Rowling torna-se palpável. No fim, não importa se a varinha é réplica ou o próprio objeto usado nos filmes; brinquedo e objeto de cena funcionam de acordo com os mesmos princípios: são instrumentos a partir dos quais a imaginação começa a brincar.

A visita tem início numa galeria onde um ator convida voluntários a provar o Chapéu Seletor, que os envia às diferentes casas da escola de magia de Hogwarts. Acompanhados por montagens de trechos dos filmes, somos conduzidos por suas salas de aula e alojamentos, passando por professores e objetos mágicos. Chegamos à Floresta Proibida, onde o ar é úmido e a névoa rodopia, criando um clima sombrio, e à galeria seguinte, onde as nefastas Forças das Trevas de reúnem. Lá estão expostas roupas que os amigos de Harry usaram no Baile de Inverno ao lado de doces "abelhas mágicas assoviando" saídas de Hogsmeade e uma breve aparição de Dobby, o elfo doméstico. Tudo isso deve significar muito para os que leram os livros ou viram os filmes.

O que torna tudo tão comovente é tais objetos serem mais que lembretes de algo visto com mais intensidade no contexto dos filmes. Há outra coisa que se torna evidente enquanto olhamos esses objetos. Filmes e livros da série Harry Potter são imersos numa reverência pelo passado, parecem quase ter o passado como seu tema. E, na mostra, sentimos o peso desse passado. Os livros exibidos, sobre poções e vassouras e monstros, são criados como volumes do início do século 20. Hogwarts é assombrada por tradições e detalhes góticos. O espetáculo captura esse espírito, oferecendo um tributo a um mundo perdido num momento em que a série de filmes está prestes a chegar ao seu desfecho. Imbuído do desejo de afastar o apocalipse, quase me convenci a comprar uma varinha. TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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