Roberto Candia/AP
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No primeiro, a gente nunca acerta

The Killers e The National arrasam no Lollapalooza Chile, mas problemas de organização maltratam público

Jotabê Medeiros, enviado especial, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2011 | 00h00

SANTIAGO - Teve gente que ficou até três horas para pegar ingresso comprado pela internet, do lado de fora do Parque O'Higgins, em Santiago, para ver as 30 atrações do sábado, primeiro dia do megafestival do Chile - a primeira edição do Lollapalooza Festival, em 20 anos de existência, fora dos EUA. Foram cerca de 100 mil pessoas nos dois dias de shows - 20 mil a mais do que o estimado, e milhares de crianças entre elas.

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O palco fechado, o TECH Stage, virou uma sauna hiperlotada e esbanjou problemas técnicos (o hypado grupo Edward Sharpe & the Magnetic Zeros levou 40 minutos para conseguir ligar todos os equipamentos). O magnífico parque O'Higgins tem árvores para todo lado, mas montaram os palcos no estacionamento, onde o sol inclemente castigou o público. Cerveja só para os VIPs, mas o resto funcionou: serviços, banheiros, policiamento, áreas de descanso, tudo ótimo.

O Lollapalooza teve mais acertos que erros. Foi muito bacana ver Casey Spooner, do Fischerspooner, atuando voluntariamente como apresentador da banda brasileira CSS (cuja fila serpenteava por quase 1 km no parque). "Eu simplesmente amo essa banda", disse. Foi ainda melhor assistir à festa xamânica que é o show do grupo Edward Sharpe & the Magnetic Zeros, uma trupe americana neohippie que, com nove netos da Era de Aquários no palco, assemelha-se aos Novos Baianos dos anos 1970. O líder do grupo, Alex Ebert, desceu do palco, arrancou um baseado de um garoto da plateia e deu longa tragada.

O público enlouqueceu quando The Magnetic Zeros cantaram seu maior hit, Home, e tinha gente vindo desertando lá do Ben Harper para vê-los. Até Wayne Coine, dos Flaming Lips, estava na plateia. Outra banda que levantou a bandeira do "Legalize Já" foi o Cypress Hill, que toca hoje em São Paulo. Um show vitaminado e de grande resposta pública de hip-hop, só igualado em peso, na tarde, pelo Deftones (que também toca hoje em São Paulo). O Deftones fez um show baseado no disco White Pony, um dos seus trabalhos referenciais.

Grupos chilenos compareceram em todo o espectro da música. As melhores surpresas, curiosamente, vieram não do pop, mas do hip-hop e do hardcore. A "rapera" Anita Tijoux é a melhor. Amparada por uma banda orgânica,ela é a maior expressão feminina do hip-hop sul americano atual. Os pais foram exilados na França nos anos 70 quando ela era criança pela ditadura Pinochet. Ana Maria Tijoux só voltou ao Chile em meados dos anos 90.

Outros grupos chilenos bons fizeram shows de respeito na jornada, como o grupo Devil Presley, um power trio que soa como se fosse uma espécie de Los Lobos do hardcore. A bela cantora e tecladista Francisca Valenzuela, que Bono, do U2, escolheu para abrir seu show aqui, tem um público muito fiel e receptivo, mas faz um show de pop incipiente, escorado em fórmulas do tipo American Idol, sem grandes voos; a banda Los Bunkers é pouco imaginativa e comum, embora tenha um time de multiinstrumentistas no palco.

Lovefoxx, do CSS, causou no Lollapalooza. Jogou-se na plateia e perdeu a caixa do microfone. Em portunholglish perfeito, pediu para o público: "Podem ojar o chão? It's a box with a antena!", pediu. Um garoto achou e devolveu. Incrível. Nenhum show foi mais dançável e divertido no Parque O'Higgins.

No palco principal, os sacerdotes da melancolia suaram com o sol escaldante e o calor saariano. A banda inglesa James, remanescente do rock de Manchester dos anos 1980, ainda se segura com um bom vocal e seu background sub-U2. Os americanos do The National sofreram mais - suas melodias e a voz à Ian Curtis do vocalista Matt Berninger, decididamente, não são para torrar ao sol.

"Están listos para The Killers?", perguntou o vocalista Brandon Flowers. E o público realmente estava. Cabelos raspados nas laterais, Flowers encabeça uma espécie de missa pop grandiloquente que está ficando cada vez mais clássica, mais encorpada. Temas como Bling Confessions of a King, Jenny Was a Friend of Mine, Read my Mind, Mr. Brightside e When You Were Young são senhas para um show de ilusionismo, que Flowers conduz com grande voz e irrequieta competência, reverenciando o publico de cima das caixas de som, como se dançasse no abismo. Tocaram durante uma hora e 10 minutos para cerca de 15 mil pessoas.

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