No prelo, livro de fotos de "Lavoura Arcaica"

O clima das filmagens de "LavouraArcaica", estréia no cinema do diretor televisivo Luiz FernandoCarvalho, está no livro que o diretor de Fotografia WalterCarvalho pretende lançar assim que conseguir financiamento. Nãosão fotos de cena e sim registros de como o filme nasceu e foirealizado, entre 1996, quando o diretor ganhou o livro de RaduanNassar que lhe serviu de base, e a última cena, rodada em 1999.O livro está pronto, mas faltam R$ 143 mil para imprimir as 2mil cópias do projeto aprovado pela Lei Rouanet. Atualmente, aEditora da Universidade de São Paulo (Edusp) busca parceirospara a edição. "Sempre documentei meus trabalhos e dei uma cópia aosdiretores. O Luiz Fernando recebeu 1.800 fotos e foi o primeiroa se interessar pelo aproveitamento do material. Viu ali umdocumentário da realização do filme", conta Carvalho que, entrecurtas e longas-metragens, novelas e minisséries tem quase 70produções em 25 anos de carreira. "Enquanto eu fazia as fotos,minha intenção era apreender aquele momento profissional. Sódepois que foi desenhado pela Sílvia Steinberg, é que vi que aliestava a história do filme." Lavoura Arcaica estreou no ano passado com sucesso.Acumula 40 prêmios nacionais e internacionais (sete para afotografia) e foi visto por 150 mil pessoas, embora tenha sóseis cópias e ainda esteja em lançamento pelo Brasil afora."São ótimos números para o cinema nacional, mas não facilitam avenda do projeto do livro, que é caro para ter qualidade", dizCarvalho. Ele tentou o patrocinador do filme, procurou editorasde arte e agora deposita esperanças na Edusp. "Eles têm umtrabalho de ótima qualidade e estão editando outro livro sobreLavoura Arcaica, com entrevistas da jornalista Helena Salém,fotos e desenhos do Luiz Fernando para as cenas. Acho que foi oúltimo trabalho dela." Carvalho captou momentos preciosos da produção, cenas demaking of - termo que detesta por ser importado e considerardocumentário mais adequado - carregadas de emoção e informação.Se não contassem uma história, valeriam pela plasticidade ou porrevelar intimidades. É imperdível a expressão do escritor RaduanNassar, ao ver a atriz Simone Spoladore dançando como exercíciopara viver Ana. "Ele teve uma reação de felicidade, quando viua personagem em carne e osso", lembra Carvalho. Já uma conversaentre o ator Raul Cortez e o diretor Luiz Fernando informa comoa equipe conviveu durante as filmagens. "São fotos quaseinéditas, pois evitamos usá-las na publicidade do filme." Apesar do envolvimento com a produção e com LuizFernando, de quem é amigo desde 1983, quando ambos foramtrabalhar na Rede Globo, ele ensina que a fotografia não sesobrepõe à história a ser contada e cabe ao diretor encarregadotirar do roteiro a imagem ali contida. "Algumas pessoas viramem Lavoura Arcaica tintas do pintor holandês Vermeer em quemnão pensei quando desenhava a luz do filme", comenta Carvalho."Essa influência existe porque a fotografia é filha diretadesses pintores, que nos ensinaram a usar a luz. Nunca reproduzium quadro ou uma imagem já feita, mas tudo o que vi até hojeaparece no meu trabalho." Carvalho só lamenta não ter tempo para seus projetos,mas ressalta o prazer de assinar filmes como Villa-Lobos,Amores Possíveis, Central do Brasil, AbrilDespedaçado e os ainda inéditos Amarelo Manga,Carandiru e Madame Satã. Dirigiu dois documentáriosprontos, Janela da Alma (em parceria com João Jardim) eSOS MAM, sobre o incêndio do Museu de Arte Moderna do Rionos anos 70; e outros dois filmes aguardam recursos para amontagem, um sobre o prédio da União Nacional dos Estudantes,demolido em 1968, e Cine Continental, sobre uma sala em ruínas,no interior da Paraíba, seu Estado natal. "Mas sempre alguém mechama e eu deixo de lado esses projetos", explica. "Também mefalta talento para buscar dinheiro. Tentei, mas não deu certo eprocurei profissionais do ramo." Carvalho gostaria de lançar o livro com o DVD deLavoura Arcaica, previsto para o início do ano que vem. Atépara provar sua tese sobre fazer cinema: "Um filme é umconcerto sinfônico. O roteiro é a partitura; o diretor, omaestro e a fotografia é o primeiro-violino. Mas só dá certo sehá entrosamento de toda a equipe."

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