No prelo

"Autobiografia póstuma", montagens e relançamentos marcam efeméride

ROBERTA PENNAFORT / RIO , O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2012 | 03h11

"Eu comecei a estudar, e aí que ocorreu aquele negócio da merenda... Eu era pobre, menino pobre, e levava uma banana, e estava muito orgulhoso olhando a banana, mas quando cheguei no recreio com a minha banana, muito maior que o momento da aula, quando puxei minha banana, outro garoto, simultaneamente, olhando para mim e baixando os olhos e olhando para mim outra vez, desembrulhava um sanduíche de ovo que humilhou e liquidou a minha banana. Pão e manteiga, isso pra mim era coisa oriental das Mil e Uma Noites."

Nelson Falcão Rodrigues: o menino que, na escola, iria se apaixonar por todas as professoras, e também chocá-las. No primário, num concurso de redação, enquanto o coleguinha falava sobre um príncipe que montava um elefante, ele contava uma história de adultério que terminava em assassinato.

"Foi já com esta A Vida Como Ela É... que me senti escritor, porque eu me entreguei a isso com um élan fabuloso. Comecei a ser marcado na aula talvez como um gênio. Era olhado pelas professoras como uma promessa de tarado", o autor avaliaria décadas mais tarde.

Os relatos, dos mais singelos aos mais contundentes, estão em Nelson Rodrigues por Ele Mesmo (Nova Fronteira), publicação que faz parte de um conjunto de iniciativas motivadas pelo seu centenário de nascimento.

A organização do livro é da filha Sonia Rodrigues, estudiosa que se dedica à obra há 12 anos. A voz de Nelson é ouvida em entrevistas sobre seu trabalho e em relatos pessoais.

A ideia é de uma "autobiografia póstuma", o "canto desesperado" do autor contra o que o incomodava na sociedade (o divórcio, a imoralidade) soando alto. Assim como suas obsessões (amor e morte, o assassinato do irmão, morto no lugar do pai, que marcaria seu teatro e suas crônicas), os aforismos que nunca perdem a validade ("Não sou um escritor unânime, porque a unanimidade é uma burrice").

Trajetória. Ele fala da chegada da família ao Rio, vinda do Recife, do gosto perene pela leitura, a carreira no jornalismo, seu "teatro desagradável", a gênese de A Mulher Sem Pecado, Vestido de Noiva, Viúva, Porém Honesta, Anti-Nelson Rodrigues, a repercussão à época das estreias (as peças, segundo ele, geralmente desagradavam "aos cretinos de ambos os sexos").

Sua impressão sobre as adaptações cinematográficas a que assistiu: "Bonitinha, mas Ordinária, O Beijo no Asfalto, Boca de Ouro e outras, quando transpostas para a tela, parecem-me uma caricatura de mim mesmo. Na minha opinião, o cinema não chega a ser uma arte. Daqui a 6 mil anos talvez o seja."

Sonia apenas costurou os textos. "O que ele falava nas entrevistas diz muitíssimo sobre sua personalidade. Ele era reservadíssimo sobre detalhes da vida pessoal, não entregava o detalhe, mas entregava o sentimento", acredita. "O melhor de tudo é que a fala de Nelson Rodrigues já vem editada, é uma coisa surpreendente, ele falava como escrevia, falava como autor do próprio texto o tempo todo."

Sonia, que pesquisou em arquivos de jornais e de particulares, quer desfazer equívocos que acompanham sua trajetória até hoje, como o rótulo de pornográfico, grudado em sua dramaturgia por conta de peças permeadas por traições, luxúria, casos de pedofilia e incesto. "Os encenadores terão mais uma fonte para construir os espetáculos: o próprio Nelson."

Para quem gosta de ler as íntegras, o site www.nelsonrodrigues.com.br, criado por ela há sete anos e atualizado com resumos de trabalhos universitários de todo o País, é fonte mais do que confiável.

O desinformado que quiser partir do zero pode começar na exposição Nelson Rodrigues - 100 Anos do Anjo Pornográfico, em cartaz numa pequena sala do Teatro Glauce Rocha, no centro do Rio, e que tem entre os curadores o filho mais velho, Nelson Rodrigues Filho.

Começou com o dramaturgo, e contemplará o Nelson no cinema e na TV, o jornalista e sua ligação com o futebol. A mostra é itinerante - passará por espaços da Funarte em São Paulo, Belo Horizonte e Brasília.

Estão expostos sua máquina de escrever Remington e um terno. Mas a graça maior são os painéis com reproduções de artigos de jornal e programas das primeiras montagens.

Em 1943, sobre Vestido de Noiva, Manuel Bandeira, para quem Nelson era "o maior poeta dramático da literatura portuguesa", decretava que ele já em sua "segunda tentativa atingiu a altura de obra-prima". José Lins do Rêgo fez coro louvando "uma prodigiosa e rica imaginação de criador".

A Funarte está com edital aberto para montagem de todas as 17 peças de Nelson, a serem encenadas em agosto nos teatros Glauce Rocha e Dulcina.

Onze (leia abaixo sobre algumas delas) estão sendo relançadas pela Nova Fronteira, e chegam às livrarias nas próximas semanas.

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