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No planeta de Steven

Cantor fala de tudo: das drogas ao dia em que quase entrou no Led Zeppelin

Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo,

25 de setembro de 2011 | 03h07

"Pronto, falei." A última frase do livro de memórias de Steven Tyler, O Barulho na Minha Cabeça te Incomoda? (Does the noise in my head bother you?), é talvez a mais famosa hashtag do Twitter, e ilustra o espírito boquirroto e sem regras da narrativa do cantor do Aerosmith (e jurado do American Idol, não podemos esquecer).

A autobiografia tem esse caráter meio psicanalítico, de descarrego, mas também há método e intenção nela. Steven Victor Tallarico nasceu no Hospital Policlínico do Bronx em 26 de março de 1948. Viveu em Manhattan, em Yonkers e em Boston, onde fundou uma banda que estava inteiramente fundada na sua bem-sucedida imitação do sotaque cockney de Mick Jagger e da libido pública dos Rolling Stones.

"Meu lema sempre foi: imite até conseguir. Se quer ser uma estrela de rock, como ensina Keith Richards, você precisa treinar seus movimentos primeiro no espelho", diz o cantor que, quando adolescente, andava pelas lojas da Carnaby Street do Village atrás de camisas sem colarinho, coletes de couro e calças quadriculadas para inventar sua persona. "Eu era um garoto branco de Yonkers, tentando ficar doidão, tentando ser cool", lembra.

"Steven Tyler, o lábio pendurado como o Jagger, fez todo mundo se levantar", escreveram sobre uma das primeiras apresentações do cantor à frente dos Strangers. "Escreviam coisas assim nos jornais. Compraram minha imitação de Mick, totalmente. Não dava para acreditar. Mas, claro, eu - mais do que qualquer outro no planeta - acreditava nisso. Eu era ele. Não tinha nem 16 anos, mas, em minha cabeça, já era um dos maiores compositores da Inglaterra."

Obcecado pela fama e "imortalidade", ele começou a tatear o mundo em que pleiteava um lugar de honra. Foi aí que conheceu Joe Perry, uma espécie de antiespelho que se tornaria seu parceiro de toda a vida - seu Keith Richards, seu Caim ou seu Abel. Quando começaram a tocar juntos, Steven lembra que havia por cima umas 5 mil bandas de rock tentando alcançar algum sucesso em Boston. "Éramos muito barulhentos para a maioria dos clubes e bares. Fomos expulsos do Bunratty's Bar, em Boston, porque começamos a incorporar músicas nossas ao repertório, e os donos do clube não gostaram."

"Não me tornei Steven Tyler de repente. Fui criando meu espaço, pedaço por pedaço. Steven meio que cresceu tocando em todos os clubes de Nova York, tomando ácido, andando pelo Greenwich Village, viajando e indo a eventos no Central Park. Toda essa coisa é de onde eu vim. Mais do que tudo, fui formado pelo tipo de música que eu ouvia em 1964, 65, 66. The Yardbirds, Stones, Animals, Pretty Things e seu louco baterista Viv Prince - ele era Keith Moon antes de Keith Moon se tornar o baterista louco do The Who."

Tyler fala de tudo, sem papas na língua. "O verdadeiro heavy metal para mim é o Led Zeppelin tocando Dazed and Confused." Aborda seus conflitos com o guitarrista Joe Perry. "Mesmo nos melhores momentos, não nos falamos durante meses. Nas turnês, somos como irmãos, mas sempre há uma tensão no ar, rompida por momentos de êxtase e períodos de puro ódio." Examina fatos constrangedores de sua carreira, como a apresentação na entrega dos Oscar, na qual seu retorno falhou e ele perdeu a primeira parte da canção (ao vivo) e também sobre o dia em que estourou o joelho com um pé de microfone em Anchorage, no Alasca, e ficou caindo no palco. "A ambulância chegou, me deram uma dose de algo que gosto - não soube o que era, mas pude ouvir a abertura de Strawberry Fields flutuando em minha cabeça." O episódio recente com as drogas (todo tipo de drogas), que o levou à enésima internação e ameaçou cortar sua ligação com o Aerosmith encerra o volume.

Os fãs do Led Zeppelin vão amar ler a parte em que ele conta como, em setembro de 2008, ao lado de Jimmy Page, John Paul Jones e Jason Bonham ensaiaram canções do Led Zeppelin o dia todo, com Steven como vocalista, e de como ele decidiu que não ia levar aquilo adiante. "Simplesmente não acho que uma banda como o Led Zeppelin precise de um cantor como eu. Eles já tinham o melhor; eles eram os melhores."

Tyler está com 63 anos, mas sua história prossegue sendo escrita da mesma forma caótica e tumultuada. Em 2010, o Aerosmith cogitou substituí-lo na banda. Mas, em maio daquele mesmo ano, o grupo voltou ao Brasil em turnê pela América do Sul, e fez o show Cocked, Locked, Ready To Rock Tour para um Parque Antártica lotado, cerca de 38 mil afortunados fãs.

A boca descomunal, os gritinhos de traveco animado, a aeróbica incansável, a voz estridente um tanto arranhada pelo tempo, a habilidade teatral em passar de um tema romântico para um blues tradicional pungente: Tyler continua sendo a alma desse circo mambembe de excessos. Quem quiser ver ao vivo o mito, a chance está chegando. No dia 30 de outubro, o Aerosmith toca no Estádio do Morumbi.

No fim do livro consta uma advertência: as letras das músicas não puderam ser traduzidas por motivos legais. É quase um contrassenso: o estupendo clima de liberdade e visionarismo que se experimenta ao longo do relato (com todas as implicações que trazem) contrasta com essa gaiola legal em que a música vive, e esse comercialismo brutal que tolhe as liberdades de nossa época.

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