NO PASSO DOS ANIMAIS

Grupo encena a coreografia Aventura entre Pássaros, inspirada em Darwin

HELENA KATZ, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2013 | 02h13

A companhia faz 27 anos agora, neste mês de março, mas ela já chegou aos 34 anos de bons serviços prestados à dança. Mesmo com uma carreira sólida e produtiva, e sendo responsável, no Brasil, por uma das mais vigorosas assinaturas, em termos de consistência coreográfica, João Saldanha e seu Atelier de Coreografias não vivem um momento tranquilo. Estreiam hoje, às 21 horas, no Sesc Consolação, a sua mais recente produção, Aventura entre Pássaros, e no dia 13 de março a apresentam no Sesc Sorocaba. Depois, estão sem qualquer perspectiva de trabalho que garanta a sua continuidade.

A dança vive, em todo o País, do gerenciamento de oportunidades que os editais estabelecem. Esse tipo de gerenciamento se apoia na permanente ameaça de descontinuidade, uma vez que sua engrenagem é a do rodízio: quando alguém é escolhido, um outro alguém foi "desescolhido". Quando a essa situação se soma o fato dos teatros do Rio de Janeiro estarem fechados para uma avaliação técnica, a situação dos artistas que lá vivem se complica ainda mais.

Não à toa, a nova criação de João Saldanha trabalha com a ambiguidade. "Existem situações de conjunto, mas elas não se concluem, são permanentemente interrompidas, uma coisa leva para outra, que também não se conclui. Não dava para ser de outro jeito", conta ele, em entrevista ao Estado por Skype. "A dificuldade desse trabalho está na sua dependência de que é preciso acontecer uma comunhão do elenco. Um se deixar atravessar pelo outro, sem permitir que o conjunto se torne refém da expressão individualizada de cada um dos intérpretes, que são muito distintos e estão trabalhando juntos há um ano e dois meses."

Os oito intérpretes têm histórias e experiências distintas. Para situar, apenas dois exemplos: Thiago Sancho é um jovem que se formou em Friburgo, pequena cidade do Estado do Rio de Janeiro, e Renata Versiani vem de uma consolidada carreira de primeira-bailarina do mais importante teatro desse mesmo Estado, o Municipal do Rio de Janeiro. Eles foram selecionados em uma audição que durou quase dois meses. "Foi um trabalho de garimpagem mesmo, dificílimo, pois hoje os bailarinos são bastante diferentes do que foi a minha geração na idade deles. E a criação veio dessa duplicidade de sentido que agora parece estar permeando tudo."

Para explorar a duplicidade do estar em cena e não fazer representação explícita, João Saldanha começou com o livro As Expressões das Emoções no Homem e nos Animais, de Charles Darwin, detendo-se, sobretudo, nas ilustrações. "Quando conseguimos nos deixar motivar uns pelos outros, a comunicação que interessa acontece, e é lindo. Mas, até lá, há uma fronteira tenebrosa a ser transposta, e esse é nosso trabalho, a cada dia."

Aventura entre Pássaros nasceu de um edital realizado em 2011, na gestão de Emílio Kalil frente à Secretaria Municipal de Cultura do RJ, o Fada (Fundo de Apoio à Dança). "É claro que as pessoas com quem você trabalha também vão entristecendo com as dificuldades. Por exemplo: para podermos estrear agora, em São Paulo, foi necessário antecipar as nossas férias. Ao mesmo tempo, ainda não sabemos se vamos poder continuar juntos, e vou pedindo paciência a todos, até que saiam os resultados dos editais aos quais estamos concorrendo. Quase tudo vai acontecendo 'no favor', o que não é saudável para ninguém, e está longe de ser o que se espera de uma relação profissional. O salário médio de um bailarino é de R$ 2.500, e esse é o preço do aluguel de um quarto e sala em Botafogo. Isso dá uma boa ideia do tipo de realidade que precisamos enfrentar, hoje, para fazer dança."

Por 65 minutos, Ana Paula Marques, Celina Portella, Olivia Secchin, Renata Versiani, Fernando Klippel, Lucas Rodrigues, Samuel Frare e Thiago Sancho dançam com a trilha composta por Sacha Amback. Toda a encenação (coreografia, figurinos, cenário e luz) é de João Saldanha.

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