No palco, um manifesto contra a passividade

O ator e músico Eriberto Leão define Alma de Todos os Tempos, espetáculo teatral que volta amanhã ao cartaz na cidade, no Teatro Paulo Eiró, como um manifesto enérgico contra a passividade que assola a sociedade brasileira, em especial, a juventude. "Do ponto de vista moral e ético, vivemos uma situação bastante crítica, as diferenças sociais são cada vez mais gritantes e as pessoas que renegam a política vivem numa ficção ignorante", dispara Leão. "Hoje, grande parte da juventude está equipada com acervos tecnológicos incríveis, mas até que ponto podemos considerá-la moderna ou ciente do que ocorre a sua volta?´´, pergunta.Considerando as proporções das adversidades, Leão, em parceria com o diretor teatral Gabriel Villela, é o responsável pelo manifesto musical inspirado na vida de Jesus Cristo. Não se trata de uma elegia católica. Longe disso. No bojo das citações díspares, o texto congrega fragmentos dos escritos de Che Guevara, Jim Morrison, Goethe, Marx, Shakespeare e Fernando Pessoa. Alguns deles vertidos para canções arranjadas especialmente para o espetáculo."Na peça, há um paralelo entre a sociedade utópica de Marx e o Reino de Deus, isto é, as boas novas e a materialização de ambos são frutos de uma revolução constante", diz Leão. "E essa revolução só acontece a partir de uma mudança interna´´, comenta o autor, teorizando sobre a ideologia propagada por seu texto, o hipotético socialismo espiritual. "O que faltou aos grandes movimentos revolucionários da História foi a espiritualidade."Trevas - A primeira versão de Alma de Todos os Tempos foi escrita por Leão no fim de 1998. Além da intenção de "fazer as pessoas pensarem e deixarem de lado o individualismo", ele já pretendia trabalhar com o mineiro Gabriel Villela, segundo ele, uma lenda do teatro. O contato entre os dois coincidiu com um momento de vida delicado para o diretor, que se recuperava de crises de síndrome do pânico. A internação em uma clínica e a temporada em sua fazenda no interior de Minas Gerais fizeram parte da reabilitação do artista. "É como diz a Bíblia: para compreender a luz é preciso ver as trevas", lembra Leão.Ao analisar o texto, o diretor da premiada adaptação teatral para Romeu e Julieta, entre outras produções de peso propôs mudanças estruturais no roteiro. "Reconheço que a primeira versão era um tanto politicamente correta, a intervenção de Gabriel foi visceral´´, elogia Leão. "No fim do trabalho, tínhamos uma colagem de grandes idéias da humanidade; conseguimos misturar a era de aquarius com a banda Sepultura, Tai chi chuan com metralhadora, Jesus Cristo com Che Guevara."Alma de Todos os Tempos tem 90 minutos de duração e transcorre num cenário que reproduz os círculos de pedra de Stonehenge, na Inglaterra. Nada mais apropriado, pois se tratam de estranhas esculturas feitas com dólmens e menires. Suas formas fazem referência aos portais usados nos rituais visionários druidas. "Os druidas entravam em transe nesses portais mágicos."A música pontifica o espetáculo. A banda Estranhos, formada por Eriberto Leão (voz), Johnny Monster (baixo e voz), Jaques Molina (guitarra e voz), Jeff Molina (bateria e voz) e Nábia Vilella (voz), executa a trilha sonora que, tal qual a gama de referências literárias do texto, põe em pé de igualdade Raul Seixas, The Doors, The Beatles, Queen e Dead Kennedys, passa por Carcará (aqui em versão heavy metal), de João do Vale, até chegar nas canções criadas pelos Estranhos especialmente para o espetáculo. Os títulos são Profecia, É Quase Tudo Ladrão e Alguém Precisa Gritar.´´A disciplina do teatro foi muito positiva para uma banda tão caótica quanto a nossa; há toda uma marcação cênica que nos obriga a atuar mesmo", observa o baixista Johnny Monster, que ao lado do ex-VJ da MTV Gastão Moreira, atualmente apresentador do programa Musikaos, da Rede Cultura, liderava o grupo Hip Monsters.A aventura musical do espetáculo pode ser ouvida também num CD independente vendido durante as apresentações. E, a despeito do tom "político-existencial-psicodélico-panfletário" do texto, Monster é categórico em afirmar: "Somos apenas uma banda de rock-and-roll". A cerimônia vai recomeçar.Alma de Todos os Tempos. Musical. De Eriberto Leão e Gabriel Villela. Direção: Gabriel Villela. Duração: 1h30. Sexta e sábado, às 20h30; domingo, às 19 horas. R$ 10,00. Teatro Paulo Eiró. Avenida Adolfo Pinheiro, 765, tel. 546-0449. Até 27/8

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.