No palco, seis presidiárias e a aids

Não é sempre que se vê um elenco jovem atuando em cenas de grande tensão, com verdade, intensidade, porém sem gritos. Pois essa proeza é alcançada pelas sete atrizes de A Mancha Roxa, de Plínio Marcos, espetáculo que reestréia nesta sexta-feira, na Sala Experimental do Teatro Augusta, depois de curta e discreta temporada no Centro Cultural São Paulo.A encenação de Roberto Lage, feita para pequenos espaços nos coloca praticamente dentro da cela de seis presidiárias. Um ambiente onde a imposição se dá pela força e impor-se pode ser essencial para a sobrevivência. Onde pequenas disputas e tensões costumam ganhar dimensão de vida e morte. Tudo isso está presente em A Mancha Roxa, um espetáculo que, a despeito da forte temática, pode ser visto com grande satisfação.Na década de 80, a partir de uma pesquisa realizada pela Corregedoria dos Presídios do Estado de São Paulo, Plínio Marcos foi o autor escolhido para criar uma campanha de prevenção à aids no sistema presidiário. O autor de Barrela passou um bom tempo trabalhando dentro das penitenciárias para conseguir realizar a contento a campanha, que acabou premiada. Impressionado com o que viu, pouco depois escreveu A Mancha Roxa.A ação da peça transcorre numa cela especial. Ali estão personagens como uma ex-professora, uma ex-enfermeira e também presas comuns que, pela legislação, não deveriam usufruir a "regalia" de uma cela especial. Mas entre as mazelas do depauperado sistema carcerário está a corrupção: essas presas acabam naquela cela por prestar "favores sexuais" à carcereira que também "agencia" presas para alguns policiais.De repente, elas descobrem que uma delas está com a mancha roxa, ou seja, foi contaminada pela aids. Essa constatação muda totalmente a rotina da cela. Um dos méritos do texto - revelado pela encenação - é mostrar a aids como mais um dos problemas enfrentados por essas mulheres. Talvez o derradeiro. Porém, a grande tragédia está mesmo na vida.Daí talvez a utilização brilhante da voz, que desde o início da peça, parece escapar entredentes. Elas parecem calejadas demais para gritar. Conhecem seus limites. Sua impotência. O ódio que guardam é antigo. A certeza da aids acaba por trazer à tona o ressentimento pela sociedade que as transformou em mulheres roxas. E ser "roxa", nesse caso, significa ser "excluída", jamais ter tido a chance de uma vida plena. A Mancha Roxa. Drama. De Plínio Marcos. Direção Roberto Lage. Duração: 60 minutos. Sexta e sábado, às 21h30; domingo, às 19h30. R$ 15,00. Teatro Augusta - Sala Experimental. Rua Augusta, 941, tel. 3151-4141. Até 19/8

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