No palco, o verão Andaluz Dablue Man

Grife revitaliza teatro e evoca universo flamenco em sua volta ao Fashion Rio

Flavia Guerra / RIO, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2010 | 00h00

Se a moda é efêmera, um desfile de moda é ainda mais. Grosso modo, a apresentação de uma nova coleção não dura mais que 15 minutos. E, não raro, o orçamento para transformar passarelas em cenários cinematográficos vai parar quase tão rapidamente no lixo quanto a duração da apresentação. Não será esse o caso do novo desfile que a grife carioca Blue Man apresenta hoje em sua aguardada volta ao Fashion Rio, o principal evento de moda da capital carioca, que termina na próxima terça.

No primeiro desfile no Rio após a morte de seu criador David Azulay, a grife chega em tons de andaluz ao verão 2011 e escolheu um palco à altura da dramaticidade de seu tema: o Teatro Glaucio Gil, em Copacabana. "Para esta coleção, que evoca temas tão delicados e dramáticos, queria quase um templo para desfilar. Em geral, as pessoas se sentam em uma sala de desfile, não absorvem a atmosfera que envolve toda a concepção do trabalho e vai embora quase tão rápido quanto chegou", contou Marta Reis, diretora criativa da grife que, com a diretora do desfile Vera Fajardo, recebeu o Estado para conhecer os bastidores do "ensaio de orquestra" da Blue Man.

Na tarde de terça-feira, o que se via pelo teatro era um canteiro de obras. O palco - que hoje ganha pisos "andaluzes" para abrigar dançarinas de flamenco e a música de Yamandu Costa - estava tomado por marceneiros e estruturas metálicas. "Nada disto faz parte do desfile. Este é o cenário de Arrufos, que o Grupo XIX apresenta amanhã", explica Vera.

As obras são parte do Tempo Festival, iniciado na última quarta e previsto para terminar no próximo domingo. "Era exatamente o que queríamos. Em vez da passarela, o teatro. Em vez do efêmero, algo que ficasse. Usamos o orçamento do desfile para reformar o foyer e os camarins, que serão usados por nós, agora, e depois pelas companhias teatrais", disse a estilista.

Um festival teatral "agendado para o dia seguinte" parecia inviável. Sem contar que, diante da quantidade de "homens trabalhando", quem chegasse ao Glaucio Gil naquela tarde pensaria tratar-se de uma reforma geral que há tempos o teatro, inaugurado em 1958, precisa. "Vamos acabar tudo hoje. Vai ter um festival aqui e as obras da Blue Man fazem parte dele", contava um bem informado tapeceiro que forrava o foyer do teatro com veludo vermelho.

Marta, que teve a ideia de evocar a feminilidade andaluz no verão 2011, relembra que a inspiração surgiu durante uma viagem. "Em janeiro, havia ido trabalho a várias cidades europeias, como Berlim e Londres. No fim, resolvi visitar a Andaluzia para descansar. E percebi que a cultura local me tocou mais fortemente que toda a informação racional absorvida ao longo da viagem", revela ela, que por 15 anos foi assistente de Azulay e hoje enfrenta o desafio de comandar a grife. "Ele morreu há pouco mais de um ano. Este desfile de "volta ao Rio" é de tal forma importante para mim que tudo que quero é passar essa emoção para o público", esclarece Marta, hoje responsável por preserva a identidade da grife de moda praia - a mais antiga do Brasil e famosa por ter inventado o biquíni de lacinho, entre outras. "Hoje, tudo é para emocionar, do convite aos looks, do local à trilha. Nada melhor que as batidas do flamenco para fazer o coração bater compassado. Exatamente como o trote dos cavalos que ouvi na Andaluzia."

Emoção. Além do espetáculo fashion criado por Vera e Marta, o seleto público do Glaucio Gil verá no palco as mesmas cores que fizeram a estilista se comover na Espanha. "Há muita flor, o verde das alfazemas de Granada, o caramelo, o bordô, o vermelho Lorca, o grafismo dos azulejos de Sevilla. Mas tudo em tons delicados."

Essas mesmas referências cobrem as paredes do agora repaginado foyer. Em tons mais sóbrios que os dos biquínis e maiôs, as cores que "chegam para ficar" ao Glaucio Gil acabam por casar perfeitamente com o drama que um teatro pede. "Não quis carregar tanto nos tons do foyer, que é pequeno e onde muito vermelho e verde pesariam. Optamos por equilibrar vermelho, caramelo e tons de verde."

Vera - além de escalar Yamandu e as bailarinas de flamenco- decidiu orquestrar o espetáculo Primavera/Verão Blue Man 2011 ao som de Quando Calienta el Sol e outros clássicos. Para fechar, haverá também a presença-surpresa de um grande nome da música brasileira, que promete esquentar de vez a nova fase do teatro e da grife. Vale!

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