No palco, com todas as obras

Com convidados tão célebres quanto diferentes - de Umberto Eco a Keith Richards, de Harold Bloom a Elizabeth Gilbert -, Paul Holdengraber trouxe novos ares, público e ideias para a Biblioteca de Nova York

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2011 | 00h00

NOVA YORK

Avoz de Bob Marley inunda o salão. O auditório é uma joia do estilo beaux-arts. Um cartaz exibe o logotipo da veneranda Biblioteca Pública de Nova York. Mas a mesinha à frente dos próximos palestrantes acomoda uma garrafa de rum, um balde de gelo e um punhado de limões. Daqui a pouco o lendário produtor musical Chris Blackwell, responsável pela carreira de Bob Marley, Cat Stevens e do U2, vai fazer uma rara aparição fora da Jamaica, onde vive. Olho para o lado e dou de cara com a viúva de Charles Mingus, Sue. O assento à minha frente é ocupado por Salman Rushdie. Peço para sentar na frente para acomodar uma câmera e Paul Holdengraber me pergunta: "Você quer tomar o lugar do Harry Belafonte?" Bem-vindo à série Live e ao mundo inesperado desse interlocutor, que começou o expediente da última semana um pouco mais cedo para receber o Estado em seu pequeno escritório abarrotado de livros. A modéstia das acomodações surpreende quando lembramos que Holdengraber já colocou no seu palco Umberto Eco, Orhan Pamuk, Norman Mailer e também Bill Clinton e Keith Richards.

Paul Holdengraber nasceu no Texas, passou a infância no México e cresceu na Bélgica. Ele é filho de judeus austríacos e cresceu fluente em alemão, francês, espanhol e inglês. Formado em Direito na Bélgica, foi cursar filosofia na Sorbonne, em Paris, onde estudou com Roland Barthes e Michel Foucault. De lá, partiu para um doutorado em Literatura Comparada na Universidade de Princeton. Depois de uma carreira como professor universitário, Holdengraber recebeu, em 2004, um convite do presidente da biblioteca, Paul LeClerc, para "oxigenar" a instituição, como diretor de programas públicos. Cumpriu a ordem com um vigor que deve ter deixado o novo patrão sem fôlego. É sua especialidade - como se verá na entrevista a seguir.

Quando você chegou aqui, em 2004, a biblioteca tinha uma série de eventos chamada PEP, o Programa de Educação Pública. Qual foi sua primeira iniciativa?

O nome já me lembrava remédio para acidez estomacal. Trocamos para Live (Ao Vivo) na Biblioteca Pública de Nova York. Nós tínhamos uma lista de 500 e-mails do público, hoje temos mais de 20 mil. Quando cheguei, o comitê gestor me perguntou qual era a minha "missão", o que dá uma ideia da mentalidade religiosa americana. Eu respondi que era tornar a biblioteca irresistível. Queria inverter os algarismos e atrair mais gente de 27 anos, não de 72. Queria atrair pessoas que tivessem empregos de verdade. Os eventos eram às 5 da tarde, ideais para quem é aposentado - ou para quem trabalha pouco ou é acadêmico, o que é mais ou menos a mesma coisa. Passei os eventos para as 7 da noite. A média de idade dos frequentadores caiu de 55-60 anos para abaixo de 40.

Como você, sem orçamento e com uma assistente, conseguiu trazer o Keith Richards para a biblioteca, em outubro passado?

O Richards escreveu na autobiografia, Life, que queria ter sido bibliotecário. Achei muito engraçado. Eu escrevi dizendo que o lugar dele era na Biblioteca Pública de Nova York. A biblioteca é a grande promotora de igualdade. Os ingressos se esgotaram em 42 minutos. Depois apareceram no eBay por quase US$ 10 mil. Havia gente acampada aqui, na véspera, gente que veio até da Austrália para encontrar esse milagre da medicina que é o Keith Richards.

Como é o seu critério de programação, um critério que recentemente acomodou, na mesma semana, o crítico literário Harold Bloom e Elizabeth Gilbert, autora de Comer, Rezar e Amar? Não estou criticando a escolha da Elizabeth...

Você pode falar mal e eu vou defender a Elizabeth com vigor. Vou pedir a você que leia as matérias que ela fez como jornalista. Além de boa oradora, ela escreve muito bem. Mas aconteceu de ter sido bem-sucedida. Em vez de vender 20 mil livros, vendeu quase 20 milhões e há um esnobismo reverso quando as pessoas se tornam famosas. A fama, como lembrou o poeta Rainer Maria Rilke, não é mais do que uma coleção de mal-entendidos reunidos em torno de um nome. Mas quero responder à sua pergunta: a vida das ideias é muito ampla. Napoleão uma vez se referiu a um de seus generais: ele sabe de tudo e nada mais. Eu não tenho esse problema, sou um homem de apetites. Gosto de devorar coisas diferentes. Uso a subjetividade informada de quem lê há 30 anos e acredita na coabitação de diferenças. Veja a contiguidade insana de uma prateleira de livros como a minha. Max Frisch (que bela coincidência: amanhã é o centenário de nascimento do escritor suíço) está ao lado do Adam Phillips, que está ao lado de Nicolai Gogol, seguido da Lillian Hellman e do Christopher Hitchens. Eles se detestariam. A minha alegria é criar programas que me surpreendam.

E quando você traz, além do Richards, celebridades da cultura pop que escrevem livros?

Outro dia tivemos aqui o Jay-Z. O que eu entendo de hip hop? Nada. Eu ataco o assunto com a euforia da ignorância. Escrevi uma carta de amor à Patti Smith porque me apaixonei perdidamente por Just Kids. (O livro de memórias de Smith ganhou o maior prêmio literário americano, o National Book Award em 2010). Mas trago também o médico e autor Atul Gawande, que escreveu um dos mais belos textos que eu li na New Yorker, Letting Go, sobre morrer e sobre como não sabemos dizer adeus às pessoas que amamos.

Você acredita que muitos dos fãs de Keith Richards ou de Jay-Z não têm curiosidade sobre o elenco de autores que brigam na sua prateleira?

O que eu sei é que nós ludibriamos as pessoas concluindo que elas não têm interesses. As pessoas não querem só ser alimentadas, elas querem ser nutridas. Eu já sei que muita gente está disposta a ouvir os autores falarem durante duas horas. Sei também que a biblioteca emprestou mais livros de Mailer e Günter Grass quando coloquei os dois no palco. Mas não penso que estou revolucionando os hábitos de leitura da cidade. Se consigo tocar algumas pessoas e fazê-las pensar que ler é cool, já fico feliz. Acho também que, neste tempo de telas e tudo digital, quando meus filhos já não acham mais que blackberry é uma fruta, nós precisamos estar juntos. Nós temos que estar numa mesma sala com os outros e redescobrir algo que estamos esquecendo - o poder da conversa. Quando me perguntam o que eu faço, respondo: teatro cognitivo.

O mundo editorial foi abalado por transformações tecnológicas. Converso com autores que vão fazer tours promocionais e, no fim de uma noite, assinam menos de dez livros.

É um desastre. Mas eu não acordo de manhã pensando em cicuta. Acordo pensando: "O que posso fazer?" Entendo que os escritores têm muitos motivos para se lamentar. O importante, porém, é trabalhar, trabalhar, trabalhar. Não importa a situação econômica. Sob os regimes mais autoritários, sob o pior fascismo as pessoas fizeram isso. É preciso parar de reclamar. Ninguém pediu a um artista para produzir nada. A vida da mente nunca esteve em grande forma por causa de uma situação favorável. Como produtores de cultura, como curadores de conversa, é nossa obrigação continuar tentando destacar o que é relevante.

Você se sente otimista sobre uma geração que mal consegue manter o contato de olhar numa conversa porque fica de olho nas mensagens de texto e nos e-mails? O hábito solitário da leitura pode resistir nesse contexto?

O meu papel é instigar. Acho que escolho ser otimista. Quando tomo o metrô no Brooklyn todo dia, para vir a Manhattan, vejo que todos os passageiros estão absortos nos seus iPhones, iPads e também em livros que não requerem eletricidade. Vejo que leem Jennifer Egan, Thomas Friedman ou Salman Rushdie. Todo fim de semana, minha única forma de celebrar o Shabat com meus dois filhos é ir a uma livraria e dar US$ 20 para cada um comprar livros.

Mesmo sendo otimista por disposição, o que você teme?

As exigências que nos distraem são tremendas. Eu faço o que posso para convencer as pessoas de que há poucas coisas no mundo melhores do que ler uma frase bem escrita. Ou ter uma boa conversa. A Isabel Allende veio falar aqui e disse que os sul-americanos fazem amor também pelos ouvidos - a ideia da sensualidade através da escuta é maravilhosa. Ouço dizer que nunca se escreveu tanto. Ou que certos interesses restritos, graças à tecnologia, têm mais chance de ser desenvolver. Mas vivemos na era da busca. E buscar informação não é ter conhecimento. Nós confiamos cegamente na Wikipedia, no Google. Meu pai sempre me dizia "vá procurar", mas ele não dizia onde. O objeto livro ainda é uma das coisas mais preciosas do mundo.

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