No palco, a única peça de Clarice Lispector

A única peça de teatro escrita por Clarice Lispector ganha o palco paulistano em curtíssima temporada. A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos estréia hoje, no Teatro Sérgio Cardoso, como parte da comemoração dos 85 anos de nascimento da escritora nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira.Foi Nicole Algranti, sobrinha neta de Clarice, quem teve a idéia de produzir o espetáculo. "Revirando e relendo os textos da minha tia, reencontrei o texto teatral. Falei com o Paulinho, filho da Clarice, sobre a idéia de montar a peça e ele gostou", conta ela.Nicole vinha trabalhando há cerca de dois anos no projeto com o diretor José Antônio Garcia, morto no dia 22 de dezembro. O trabalho foi burilado por ele e o período de montagem da peça foi vivido intensamente pelo elenco de 15 atores, que se uniram por trabalhos comuns realizados no Galpão do Solar, no Rio: um mês e uma semana de ensaio, mais um mês de apresentações em pleno Jardim Botânico, no Rio. Garcia morreu logo após o fim da temporada de estréia."O Zé nos deu uma oportunidade rara, de nos instigar a superar nossos limites e assim conseguir imprimir uma identidade própria na construção dos personagens", diz a atriz Giovanna de Toni. "Ele colocou toda a delicadeza necessária à obra de Clarice", completa a atriz Teresa Montero, doutora na literatura da escritora.Quem deu continuidade ao projeto, supervisionando o espetáculo, foi Juliana Carneiro da Cunha que integra o Théâtre du Soleil, em Paris. A atriz vinha realizando a preparação corporal do elenco e foi a mais indicada a conduzi-los, por estar em sintonia com o projeto desde o início. "Ela nos levou à profundidade da peça", conta Teresa. "O texto da Clarice é maravilhoso, é a nossa luz. Eu só estou dando um apoio aos atores para que eles possam se auto-dirigirem a partir da próxima semana, quando volto à França", diz Juliana.A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos, escrita em 1948, é considerada uma obra inacabada de Clarice Lispector por ser muito curta. Em uma carta ao escritor Fernando Sabino, Clarice faz alusão à peça: "Comecei a fazer uma ´cena´ (não sei dar o nome verdadeiro ou técnico); uma cena antiga tipo tragédia, com coro, sacerdote, povo, esposo, amante (...) Mas você não imagina o prazer. (...) O verdadeiro título dessa grande tragédia em um ato seria para mim ´divertimento´, no sentido mais velhinho dessa palavra."E justamente porque a obra é muito curta para ser levada ao palco, Garcia teve a idéia de adaptar textos do livro Crônicas para não Esquecer, de Clarice, e transformá-los no primeiro ato do espetáculo. A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos é o segundo ato. Numa das crônicas, intitulada Das Vantagens de Ser Bobo, os atores recitam frases de Clarice que comparam os bobos aos espertos - "só o bobo é capaz do excesso de amor".A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos conta a história de uma mulher que traiu o marido e agora vai ser queimada. "O texto da Clarice mostra as contradições dos personagens, o jogo de poder existente entre eles", ressalta Teresa. A morte e o renascimento são apresentados, respectivamente, pela pecadora e pelos anjos.Dora Pellegrino e Cristina Aché revezam-se no papel de Clarice e narram cenas do espetáculo. O elenco conta também com a participação de Kate Hansen, há dez anos afastada do teatro por motivos pessoais. "É um renascimento para mim", diz a atriz veterana.Crônicas para não Esquecer e A Pecadora Queimada e os Anjos Harmoniosos. 120 min. 16 anos. Teatro Sérgio Cardoso - Sala Paschoal Carlos Magno (144 lug.). Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, tel. 3288-0136, metrô Brigadeiro. 6.ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 19h. R$ 20. Até 29/1. Estréia hoje (20)

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