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No olho do mucumbu

Em todo baú de família se esconde uma linguagem muito rica e saborosa

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2018 | 02h00

A ideia, acredite, era dar a conversa por finda na semana passada, com a prosa de “Coisas escorubiúdas”, ou mesmo com “Gasguitos na gagosa”, na semana anterior – mas quem disse que o assunto “palavras” pode ser conversado em apenas duas rodadas? E olha que nem falo dos mais de 230 mil vocábulos recolhidos no Houaiss, selecionados entre os 400 mil que existem na língua portuguesa. Sim, 400 mil, dos quais, dizia o criador do dicionário, a maioria dos brasileiros nasce, vive e morre sem utilizar mais do que 3 mil.

Se você me leu nas duas últimas terças-feiras, hipótese em que caberia agradecimento em triplo, talvez se lembre de que o assunto era léxico familiar – aquele conjunto de expressões e termos, nem todos dicionarizados, que numa casa constituem glossário por vezes ininteligível para quem não pertença ao clã. Pois não contei que na casa de meus avós maternos “paladar” tinha o sentido adicional de “bem-bom”, para designar a folgança de quem estivesse, por exemplo, refestelado num sofá macio?

Se o ponto final vem sendo adiado, é culpa de quem aproveitou a deixa do cronista para engrossar uma bem-vinda chuva de ilustrações do assunto. De saída, o confrade Sérgio Telles recomendou ao cronista a leitura imediata de Léxico Familiar, da italiana Natalia Ginzburg, lançado há pouco pela Companhia das Letras. É pra já, Sérgio! 

Lá de Belo Horizonte, o generoso primo Ruy, de quem sou cada vez mais devedor de luzes, informou que na família da Sonia, sua mulher, os Caldeira Brant, de Diamantina e cercanias, usava-se dizer que o fulano que bebeu além da conta estava “a três e um ferro”. Encontrei a expressão num livro de Antonio Benedicto Machado Florence, mas ainda não consegui destrinchá-la. Passo adiante o enigma.

Do Rio, o Ernane Catroli do Carmo socializou pérolas ouvidas de sua avó mineira. “Esta menina tem um fogo de sete cidades”, dizia ela para referir-se a alguém muito sapeca. Num roteiro turístico nos Açores, vi recomendada uma visita à freguesia de Sete Cidades e à Lagoa do Fogo. Será por aí, Ernane? A sábia senhora tinha como baixar a bola de quem pretendesse passar a perna no semelhante: “Você sabe muito, mas anda a pé!” – sabe muito mas não me engana! Já o avô do Ernane, quando dizia que uma criatura estava “um cangaço”, provavelmente não falava de jagunços, até porque a primeira acepção de “cangaço”, no Houaiss, é “bagaço da uva depois de pisada”. Resta a incógnita: o camarada só pisou na uva ou também bebeu do suco fermentado?

O Mario Viana não esquece do pai recomendando aos filhos que não fossem por demais exibidos: “Pisem no chão devagar...”. O conselho paterno, posso apostar, terá contribuído na solidificação da bem-sucedida carreira de um deles, o Mario, exatamente, hoje teatrólogo, cronista e roteirista da Globo. Vou perguntar a ele se lhe foi de valia, também, a fórmula alternativa utilizada por uma das tias quando se tratava de sentenciar que o castigo vem a cavalo: “Boca falou, o cu pagou”. 

Haverá quem prefira recorrer a linguagem menos crua – aquela amiga nordestina do Adauto Novaes, que, indignada com os altos preços dos aluguéis no Rio, protestou: “Eles estão acertando no olho do mucumbu!”. Se você não está ligando o nome à coisa, saiba que essa forma alternativa de mucubu designa “a região das nádegas em uma pessoa”.

Na família da Carmen Cagno, em Ribeirão Preto, segue sendo mistério a origem de uma frase usada para manifestar desconfiança em relação a alguém: “Te conheço, meu pau de Laranjeira. Tu és de Brotas e te chamas Laurêncio”. Ninguém ali, conta a moça, sabe informar que Laurêncio é esse e por que de Brotas – “mas todo mundo diz”. Não menos fácil de entender é a palavra com que uma parenta do Tibério Ferreira, do interior de Pernambuco, se referia às chamadas partes pudendas, suas e alheias: “Medievais”. Criativa, a moça bolou também um verbo para quem estivesse muito doidão ou muito bêbado: Transvaliar. “Fulano está transvaliando.”

Era fatal, por fim, que a iniciativa de fuçar em baús verbais trouxesse à tona mais uma fornada de jargão familiar da casa onde me criei. Há uma série de palavras que, embora dicionarizadas, não me lembro de ter ouvido além daqueles muros, entre os quais viviam dois adultos, seus dez filhos e um primo. 

Exemplo? O verbo briquitar, no sentido de trabalhar pesado, pelejar. Ou remanchar, aplicável a quem, ao contrário, desse andamento arrastado a uma tarefa. Moloide! – dizia meu pai de quem remanchasse. Nossas festinhas eram, para ele, “bailaricos”. Quem recurvasse a espinha estava “encumbucado”. Magro demais? Escanifrado. Cair matando nas comidas, inventou mamãe, era “afroitar”. Se um dos filhos parecesse exagerar na queixa de males físicos, ganhava o apelido de “santa-casa” – e uma advertência: “Vamos levar você na Baleia!”, isto é, ao Hospital da Baleia, para que o queixoso, olhando as crianças internadas, se desse conta do que é uma doença de verdade. O mais “santa-casa” dos filhos do dr. Hugo e da dona Wanda? Melhor mudar de assunto, agora de uma vez por todas.

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