No novo livro de Ferroni, o embate entre o homem e sua própria existência

Moacir Amâncio analisa 'Das Paredes, Meu Amor, os Escravos nos Contemplam'

Moacir Amâncio, Especial para O Estado de S. Paulo

16 de maio de 2014 | 20h58

O romance Das paredes, Meu Amor, os Escravos nos Contemplam, de Marcelo Ferroni, contém provocações literárias interessantes. A principal delas refere-se a questões da narrativa dividida entre a ficção de altas preocupações existenciais, psicológicas, artísticas, complicadíssimas, a ficção mediana que pretende ser algo mais do que simples divertimento, e a ficção que não dá a mínima para coisa nenhuma, propõe-se como passatempo e basta. 

Pode-se dizer que o livro se espraia por aquelas tendências, sobretudo a segunda e a terceira. A questão óbvia é: como se realiza um romance desse tipo? O grande problema seria chegar a uma síntese bem amarrada, com pleno domínio da matéria. Mas o leitor já pode estranhar de cara o retardamento da ação decisiva, apenas sugerida de início, pois o recurso pode se estender além do tolerável, dispersando o foco. Mesmo assim deve-se notar que a lentidão intencional, o texto por vezes precioso ao seu modo, opõe-se ao modismo da narrativa muito rápida, frases curtas, o ritmo de tirar o fôlego (quando eficiente), e isso por si só contaria como uma proposta interessante. 

A ação de fato instaura-se com um crime a ser desvendado pelo grupo que se encontra isolado numa antiga mansão rural com ecos coloniais-escravistas. A trama é desnorteada por uma sessão de movimento de copos. A cena é um tanto comprometedora, pela facilidade com que derrapa no banal. Sim, coloca em evidência o imponderável, mas ameaça quebrar a narrativa antes da arrancada rumo ao desvendamento do crime. O auge chega ao redor de uma mesa de jogo, metáfora do embate humano com o significado da própria existência – o grande enigma – que deixa, como compensação irônica e insatisfatória o fim redutor, mesquinho, a ser suportado pelo leitor e personagens, pois não há saída desta joça. 

Diante das tensões que permeiam o texto pode surgir a pergunta básica: conseguiu o autor realizar o projeto a partir da vasta inquietação indicada no início desta resenha, ou não? Como juntar tudo aquilo de modo convincente dentro da narrativa, que é o que conta? Não teria sido mais eficiente manter o foco nos limites de uma novela? E as personagens, são bem estruturadas, chegam a convencer? A personagem do narrador, um contista, acaba sendo a mais resistente, com sua imaginação ensandecida. Fica uma sensação semelhante àquela provocada pelo jornalista de A Doce Vida, e pelos folgados de Os Boas Vidas?

O seu destino irônico é ficar de fora, sempre bicão e descartável. 

Moacir Amâncio é professor de literatura na USP e autor de Ata (Record), entre outros.

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