Imagem Humberto Werneck
Colunista
Humberto Werneck
Conteúdo Exclusivo para Assinante

No ninho das Perdizes

Nesse bairro com nome de ave, já se viu até cortejo atrás da flauta do Hermeto Pascoal

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

18 de junho de 2019 | 02h00

Em Perdizes? Nas Perdizes? 

Cheguei aqui faz mais de 40 anos, e até hoje não sei se moro em ou nas. Prefiro em, mas parece que a outra fórmula tem fundamento histórico. Você deve ter ouvido falar (eu mesmo já contei alhures) que nesta região da capital paulista, aí por meados do século 19, havia umas tantas chácaras, e que uma delas, ali onde é o Largo Padre Péricles, pertencia a um camarada chamado Joaquim Alves, que vivia de vender garapa. 

Pois bem, o garapeiro Joaquim tinha uma enteada, de nome Teresa de Jesus Assis, a qual criava no quintal da casa umas perdizes, aves essas que, além de ovos e boa carne, produziam naquela pasmaceira um alarido sem tamanho. De onde vem esse escarcéu? – indagavam os passantes. “Dos campos das perdizes”, informava a vizinhança. Não tardou que o lugar ficasse conhecido como “as Perdizes”. Antes assim. Já pensou se a criação da Teresa fosse de outro bicho? Sim, esse bicho aí, tão estigmatizado, em que você está pensando. 

(Parêntese ornitológico: ou muito me engano – e-mails à Redação – ou apenas um outro bairro paulistano, o Jaçanã, leva nome de ave. Até isso faz de Perdizes avis rara. Raro canto de São Paulo, aliás, onde ainda se pode ouvir bater um sino, sino de verdade, não de gravação, sendo que o mais badalado é o da igreja do Largo do Padre Péricles, o mesmo que em 7 de setembro de 1822 anunciou a fiéis & infiéis a proclamação da Independência, ocorrida uma hora antes às margens ainda plácidas do Ipiranga.) 

Perdiz, convenhamos, é ave bem simpática (embora talvez não fosse bem essa a opinião dos vizinhos da Teresa). Ave de família, inclusive – aqui está o Houaiss, que não me deixa mentir: “da família dos tinamídeos”, cuja denominação latina é Rhynchotus rufescens. Atende também por cinco outros nomes: enapupês, inhambuapé, inhapupê, napopé e nhampupê. Ainda bem que nenhum desses prevaleceu na hora de batizar o bairro: já pensou morar nas (ou em) Nhampupês? Saiba, por fim, que se trata de “espécie que sofre muita pressão de caça”, e que o macho da perdiz “é responsável pela incubação dos ovos e pelo cuidado com os filhotes”. Não, definitivamente não vai mal essa conotação, digamos, feminista, de marmanjo que divide com a companheira as tarefas domésticas e familiares, a um bairro onde vive tanta gente de cabeça feita.

Mais que isso: cabeça feita, muitas vezes, aqui mesmo em/nas Perdizes – não fosse meu bairro farto em “usinas do saber”, como outro dia ouvir alguém dizer. A começar pela PUC, estabelecida desde o fim dos anos 1940 naquele prédio em estilo neocolonial construído no início da década de 1920 para ser convento das Carmelitas Descalças. Foram-se as carmelitas pé no chão, veio a galera de sandália. 

Inesquecíveis momentos ali: a inauguração do Tuca, o Teatro da Universidade Católica, em 11 de setembro de 1965, com a montagem de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, espetáculo musicado por um moleque de nome Francisco Buarque de Hollanda, dito “Carioca”, morador na rua Buri, 35, no vizinho Pacaembu; o discurso com que Caetano Veloso reagiu à vaia de quem não o deixou cantar É Proibido Proibir num festival de MPB em 1968; o mesmo Caetano, em janeiro de 1972, na volta do exílio, ignorando o clamor dos penitentes que pediam É Proibido Proibir; a alegre multidão que depois de um show saiu pela madrugada atrás da flauta de Hermeto Pascoal, que nem, mal comparando, aqueles ratos no rastro do flautista de Hamelin. Há também lembranças ruins: a invasão da PUC pela polícia da ditadura, com centenas de prisões, em 1977, e os dois incêndios que em 1984 destruíram o Tuca. 

Com tanto fuzuê, com tanta animação, fica difícil crer que Perdizes não esteve no mapa, em sentido literal, até que a Prefeitura o entronizasse, em 1897. Depois disso, só progresso. Em seus 6,34 km² – vá perdoando o tom de verbete –, se acantonam, conforme a contagem mais recente, 111.161 cidadãos, sendo este cronista, modestamente, responsável pelo algarismo que arremata a cifra. É lamentável que já não vivam aqui (ou em qualquer outra parte) os poetas Décio Pignatari e Haroldo de Campos, ambos por motivo de falecimento. Mas segue operante, com muito de concreto para dar, o outro mosqueteiro da aguerrida trindade, Augusto de Campos.

Também se mandaram, faz tempo, o Kaká e o Ney Matogrosso, ex-moradores (eu também) daquele trecho da Monte Alegre em que a rua se interrompe para recomeçar muitos metros abaixo, no pé de uma escadaria. O Ademir da Guia. A Inezita Barroso. 

Nós, remanescentes, sentimos a sangria, mas nos consola constatar que continuam por aqui, entre outros ases das artes, o Tomzé, jardineiro voluntário do prédio onde mora; o poeta Heitor Ferraz; os romancistas Ivan Angelo e Luiz Ruffato. Volta e meia topo com um deles na rua, na padoca, na tradicional livraria Cortez ou na acolhedora Zaccara, do Lúcio Cláudio idem – perdiziano, criemos a palavra, desde 1957, quando o trouxeram da maternidade. 

Não falei que este é um bairro de gente de cabeça feita? A mais recente prova disso foi o surgimento de uma Academia que, embora formada por escribas, quase todos dos bairro, não é de Letras, e sim de Litros, a qual, por ser merecedora de conversa à parte, vai ficar para uma próxima.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.