No nicho do Keane

Mais popular na América do Sul que em sua terra, grupo inglês põe à prova fervor dos fãs hoje

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2013 | 02h10

O Brasil cria alguns cultos particulares a certas bandas internacionais. Echo and the Bunnymen, por exemplo, revive aqui. E Deep Purple. E Jethro Tull. E também o grupo britânico Keane é venerado por essas bandas e muito também pelos argentinos, o que provoca a curiosidade até de seus integrantes. Eles tocam hoje no Credicard Hall, com abertura do Vanguart.

Tom Chaplin, o cantor do Keane, postou ontem no Facebook: "Saudações do Brasil! Acabamos de desembarcar em São Paulo para a surpreendente e adorável novidade (de saber) que Hopes & Fears (primeiro disco do grupo, de 2004) ficou em segundo lugar na enquete dos discos favoritos da Radio 2. Lembrando de quando o fizemos, a gente tava ainda longe de fazer da música a história de nossas vidas. Por isso nenhum de nós, em nossos sonhos mais remotos, jamais esperou tanta aprovação, amor e adulação pelos nossos esforços. Muito feliz de ouvir que o disco continua a figurar como bom após todos esses anos".

Há duas semanas, o baterista Richard Hughes (que forma com Chaplin, o tecladista Tim Rice-Oxley e o baixista Jesse Quin o grupo Keane) falou ao Estado sobre a especial popularidade de que desfrutam aqui- e que põem à prova pela quarta vez em show no Credicard Hall. "Não sei explicar por que somos tão populares aqui. É uma coisa interessante: mesmo no Reino Unido, as pessoas nos recebem com carinho, mas aqui desfrutamos de muito mais afeto. As pessoas simplesmente gostam da gente, e é recíproco. Nós nos sentimos como se estivéssemos em casa. A coisa mais importante não é a explicação, mas o fato de que isso nos motiva a voltar, e o público agradece do seu jeito admirável", afirmou Hughes.

É claro que a explicação para o Fator Keane pode ser do tipo despeitada, mas há também elementos objetivos. Um deles é a excepcional voz de Tom Chaplin, sempre impressionante. Ele já chegou a ser apontado quase por unanimidade como "o único no mundo pop capaz de substituir, mesmo que por alguns momentos, o cantor Freddie Mercury". Isso aconteceu após um convite para interpretar It's a Hard Life, do Queen, num show beneficente, The Prince's Trust Rock Gala, ao lado dos ex-parceiros de Mercury. Chaplin comoveu.

O Keane esteve aqui em agosto do ano passado, abrindo o evento Live Music Rocks, que tinha como estrela principal o Maroon 5, estourado com a canção Moves Like Jagger. "Eles foram muito generosos, nos deixaram tocar tipo uma hora. Mas acontece que em nossos shows a gente toca 1h40, duas horas. E tinha muita gente twittando pedidos para a gente voltar, muita mobilização. Foi por isso que voltamos", afirmou o baterista Hughes.

O grupo está em turnê promovendo o disco mais recente, Strangeland (2012, produzido por Dan Grech, que trabalhou em discos do Radiohead e The Vaccines). Sobre o trabalho, o tecladista e compositor Tim Rice-Oxley chegou a dizer que, após um período de "incertezas e infortúnios", o disco trazia um tipo de "redenção" para o Keane.

"Nós passamos por um período em que houve problemas, e acho que o que ele quis dizer é que é maravilhoso que estejamos fazendo música juntos de novo", explica o baterista.

O nome do grupo, Keane, veio de uma vizinha de Tom Chaplin em Battle, Inglaterra, onde viveu. O nome dela era Cherry Keane, e era muito amiga da mãe do vocalista. Cherry morreu quando Tom ainda era um adolescente, mas foi uma grande incentivadora de suas ambições musicais, daí a homenagem.

Um punhado de baladas de dramaticidade adolescente, mais uma pegada de intimidade sentimental, que em muitos dos seus shows os levam até um minipalco montado no meio da plateia, complementa a explicação objetiva do fenômeno.

"Nas canções, criamos um tipo de sinistro conto de fadas de um mundo equivocado, um sentimento de confusão e torpor, representado por um lugar sombrio sob um impenetrável mar de ferro", dizia um texto da banda sobre o disco de 2006, Under the Iron Sea.

Não há nada de sinistro nem de sombrio no som do Keane, mas algum legítimo lamento de confusão e coisas que, sonoramente, mesmo sem grande originalidade, remete a bons momentos do U2, Radiohead e Coldplay. Vencedores de dois Brit Awards, indicados para o Grammy em 2006 e 2007, têm um cardápio de hits de rádio que impressiona: Somewhere Only We Know, Everybody's Changing, Is It Any Wonder? e Crystal Ball.

A atual turnê, segundo a assessoria da Time for Fun, que realiza o show, já passou pelo Reino Unido, Japão, Taiwan, Canadá e Estados Unidos e, depois de São Paulo, seguirá por Peru, Chile e Argentina. "Em muitos aspectos, (o disco) parece ser a conclusão de um ciclo", disse Richard Hughes no release do álbum. "No álbum você tem canções sobre as experiências que dividíamos quando crianças, crescendo em Battle. Você não pode voltar no tempo, claro. Mas, de vez em quando, após um bom dia, nós vamos ao pub local e falamos sobre tudo e sobre nada até a hora de voltar para casa. Seja o que for que nos faz ser o Keane - aquela cola invisível - ainda existe."

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