No mundo mágico de Scorsese

Diretor homenageia o pioneiro Méliès em Hugo, um fascinante infantil em 3D

MANOHLA DARGIS, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2011 | 03h07

Hugo, um trabalho fascinante em 3D de Martin Scorsese, é o filme para crianças que você poderia esperar do diretor de Touro Indomável e Os Bons Companheiros. Um filme sério, belo, com a percepção do absurdo da vida e sobre um forte desejo. Ninguém é espancado até a morte, mas o ambiente fica mais e mais sombrio e um feroz dobermann quase surge de repente à sua frente. O filme foi baseado no livro A Invenção de Hugo Cabret, mas também é a expressão do amor do diretor pelo cinema.

O autor da história, Brian Selznick, chama a atenção: Brian é parente de David O. Selznick, produtor de ...E o Vento Levou, uma espécie de destino para um criador como Scorsese. A fidelidade de Scorsese à trama original é quase total, embora esta também seja uma obra pessoal. Adaptado por John Logan, o filme é sobre um menino órfão, solitário e melancólico, Hugo (Asa Butterfield), que na década de 30 dá corda aos relógios de uma estação de trem parisiense.

Abandonado pelo tio, encarregado oficial dos relógios da estação (Ray Winstone), o menino vive sozinho no interior da estação, num apartamento escuro, empoeirado e secreto, construído para os empregados. Ali, em meio a relógios, engrenagens, canecas e brinquedos roubados, ele trabalha, dorme, sonha e consertar um robô delicado que seu pai, que já morreu, relojoeiro (Jude Law), encontrou um dia. Ele é tudo que resta de um passado feliz.

Hugo vai consertando o robô com peças salvas dos brinquedos roubados de uma loja na estação. Tudo que precisa para trazer à vida a figura de corda - ali sentada, de prontidão - é a chave que abrirá sua fechadura em forma de coração. Após vários altos e baixos, Hugo encontra a chave, no que se torna uma grande aventura, envolvendo o proprietário da loja de brinquedos e sua afilhada, Isabelle (Chloe Grace Moretz). Criança adorável, ela coloca Hugo em sua vida e, assim, ele descobre que o vendedor irascível de barba branca e olhar triste é George Méliès (Ben Kingsley, comovente).

Esse nome não diz nada a Hugo e pode não significar nada para espectadores contemporâneos, mas tem a ver com este filme adorável. Mágico que se tornou pioneiro do cinema, George Méliès (1861-1938) começou a carreira de cineasta após assistir a uma das primeiras projeções de filmes para o público em Paris, em 28 de dezembro de 1895. Até então, as primeiras imagens em movimento eram exibidas em cinetoscópios, que permitiam que filmes curtos fossem vistos, mas por uma pessoa de cada vez. As imagens eram minúsculas (não chegavam a 5 cm de largura) e só se transformaram no cinema que conhecemos hoje após gênios como os irmãos franceses Auguste e Louis Lumière criarem aparelhos como o cinematógrafo, que projetavam imagens em tamanho grande na telas de modo que podiam ser vistas por uma plateia.

Embora os irmãos Lumière tenham deslumbrado o público com filmes de não ficção, que chamavam de Atualidades, Méliès fascinou o espectador com fantasias e trucagens como no filme Uma Viagem à Lua (1902). Nessa obra-prima de ficção científica de 16 minutos, um grupo de cientistas voa num foguete para a Lua onde encontra criaturas acrobáticas com pinças de lagosta em meio a jatos de fumaça e truques cinematográficos inteligentes. Na mais famosa cena do filme, o foguete aterrissa em cheio no olho da Lua (com um rosto humano), o que faz com que lágrimas escorram do seus olhos. Essa foi, talvez, uma imagem profética para o velho cineasta, que, depois de cair no esquecimento, dirigiu uma loja de brinquedos na estação de Montparnasse, onde foi redescoberto.

Selznick inicia e encerra o seu livro com alguns desenhos feitos a lápis da Lua, esse disco luminoso no qual tantas fantasias humanas foram projetadas. No livro, a Lua é como uma tela onde a fantasia cinematográfica mais célebre de Méliès se desenrola. Scorsese não explora essa metáfora lunar, mas o filme tem muita poesia cinematográfica, em especial nas imagens dos relógios, que representam a própria criação de um filme. O segredo está no mecanismo do relógio, diz o pai de Hugo em flashback, refletindo os sentimentos do próprio diretor. O tempo é importante em Hugo, claro, mas o que mais importa é que os relógios estejam com corda e lubrificados para que suas inúmeras engrenagens trabalhem juntas como se fossem só uma.

O próprio filme é uma máquina bem lubrificada, um entretenimento complexo, um brinquedo de dar corda. A primeira vez que Hugo surge na tela, está observando por trás de um enorme relógio de parece a comédia humana que se desenrola na estação. Quando olha para esses personagens, Hugo é ao mesmo tempo o espectador e o diretor.

Tanta coisa sucede nessa movimentação inicial que é como se você também tivesse partido num foguete. Depois de mergulhar pela estação, a câmera passa a seguir Hugo andando pelos saguões, desce uma escada, sobe uma rampa, outra escada e novos saguões, evocando um cenário do cineasta e coreógrafo Busby Berkeley ou a longa caminhada de Henry Hill até uma boate no filme Os Bons Companheiros. A câmera continua em movimento à medida que Hugo, perseguido pelo chefe da estação e o seu dobermann, corre passando por tipos parecidos com James Joyce e Django Reinhardt. É a Paris da imaginação Modernista, mas na realidade é o mundo do cinema, onde as engrenagens se agigantam como em Tempos Modernos e um homem parte máquina lubrifica as suas, como o homem de lata do Mágico de Oz (sonhando com um coração).

Scorsese conclui essa abertura agitada com Hugo olhando melancolicamente o mundo a partir de uma janela no alto da estação. A imagem relembra uma cena espantosa do filme Kundun, em que o jovem e isolado dalai-lama lança um olhar sobre a cidade e também lembra as conhecidas lembranças de Scorsese de quando era uma criança asmática que olhava a vida passando da sua janela - que naturalmente colocava uma moldura em volta do mundo. Esta é uma história compartilhada por todas as crianças, que começam como observadores e se tornam (se tudo correr bem) participantes. Mas Hugo tem a ver especificamente com aqueles observadores da vida que, talvez por causa da solidão, e um desejo, exploram a realidade através das suas imagens em movimento, e por isso também tem a ver com a criação de uma imaginação cinematográfica - de Hugo, de Méliès, de Scorsese, nossa também. Hugo é sobre um órfão sentimental de ficção, e do mundo criado por ele; mas, as cenas mais sinceras são sobre Méliès. O velho cineasta está tão quebrado e necessitando de um renascimento quanto o robô e embora você possa imaginar o que ocorre, é nesse ponto - como dar corda no relógio - que surpreende e encanta.

Há cenas melancólicas , mas nada piegas, como há momentos cômicos, a maioria a cargo de Baron Cohen. Existe algo de pungente e paradoxal nesta homenagem de Scorsese a um pioneiro do cinema num filme digital (e em 3D), mas as imagens em movimento pertencem à mesma terra de sonhos que Méliès explorou, relegada durante um tempo, mas pela qual a plateia novamente se apaixona. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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