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No mundo da bola

Além de ensinar geografia, as Copas possibilitaram produzir uma espécie de diário afetivo

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

09 Junho 2018 | 02h00

Os americanos aprendem geografia metendo-se em guerras e invadindo terras longínquas. Já nós, desambiciosos e sem o arsenal exigido para tais empresas, aprendemos geografia em Copas do Mundo. Muitas vidas foram sacrificadas para que os americanos ficassem sabendo onde ficam Luzon, Hanói, Phnom Penh ou mesmo Bagdá, ao passo que os habitantes do Planeta Futebol não precisaram derramar uma gota de sangue para saber localizar no planisfério as cidades de Malmö (Suécia, 1958), Ulsan (Coreia do Sul, 2002) e Porto Elizabeth (lá fomos derrotados pela Holanda no torneio da África do Sul). 

Nas Copas aprendi até palavras que a idade ainda não me permitia conhecer. Magiar, por exemplo; contribuição do Mundial de 1954, em que nenhuma equipe brilhou mais que a da Hungria, caprichosamente derrotada na final pela da Alemanha. Tão espetaculares eram os jogadores magiares que seus nomes ficaram para sempre gravados na memória de muita gente, especialmente daqueles que os tiveram por algozes. 

Dia desses surpreendi um jovem húngaro, com alguns anos de Brasil, declinando-lhe de um só jato o magnífico ataque formado por Budai, Hidegkuti, Czibor, Puskas e Kocsis – pelo qual seu pai e seu avô suspiram até hoje. Resumi para ele, do ponto de vista do perdedor, a “batalha de Berna”, que foi como ficou conhecida a renhida peleja em que seus patrícios nos alijaram da competição pelo placar de 4 x 2, com a inegável, embora redundante, ajuda de um árbitro inglês, tão inesquecível quanto seu nome, Mr. Ellis, pivô de um vexame extrajogo estrelado pelo também árbitro (e mais tarde comentarista radiofônico) Mário Vianna, que, além de xingá-lo de ladrão, tachou-o de “comunista”. 

O Mundial na Suíça chegou até aqui pelo rádio, como os anteriores e os três subsequentes, sendo que o de 1958, na Suécia, já pude acompanhar, à sorrelfa, no fundo da sala de aula, pelo transistor do aluno mais rico da turma. O som era precário, ondulante e arisco. Não fosse o patriótico escarcéu de nossos locutores, levaríamos alguns segundos para identificar qual dos dois times afinal marcara o gol. 

Por um trivial rádio doméstico acompanhei os dois últimos jogos da Copa em que enfim conquistamos a Taça Jules Rimet. Claro que chorei. Duas vezes. A primeira ao ouvir a torcida francesa que lotava o estádio de Rasunda cantar A Marselhesa – que nem no filme Casablanca. Eles tinham A Marselhesa e o artilheiro do torneio (Just Fontaine), mas nós tínhamos o que precisávamos para ganhar deles por 5 x 2

Rasunda. Outra lição de geografia. Que a molecada logo explorou numa paródia de Alá-lá-ô. A marchinha carnavalesca de Nássara e Haroldo Lobo dizia: “Ai que calor, ô, ô, ô, ô, ô, ô! Atravessando o deserto de Saara, o sol estava quente e queimou a nossa cara”. Bastou trocar o deserto de Saara pela cidade de Rasunda e a cara por sua rima mais óbvia. 

Além de ensinar geografia, as Copas nos possibilitaram produzir uma espécie de diário afetivo, fixando em nossa memória momentos marcantes do passado, com as datas colhidas em alfarrábios futebolísticos ou no Google. Sei exatamente o que estava fazendo, por exemplo, em 6 de junho de 1962 porque, naquele dia, antes de o Brasil virar o jogo contra a Espanha, no estádio Sausalito, penei um bocado para escrever uma crítica da comédia O Terror das Mulheres, de Jerry Lewis, na redação do Correio da Manhã. 

Insólito Mundial o do bicampeonato. Cada jogo num local diferente. Até na varanda do Alcazar, na Avenida Atlântica, fiz minha transistorizada vigília cívica, amargando na companhia de Mauricio Gomes Leite um empate sem gols com a Checoslováquia, na tarde de 2 de junho. 

O mais inesperado ficou para o desfecho da competição, contra a mesma Checoslováquia, no domingo 17 de junho. No apartamento da atriz Irma Alvarez, em Copacabana. Enquanto ela, Reginaldo Faria e Sérgio Sanz vibravam, na sala, com o gol de empate de Amarildo, eu ajudava o trabalho de parto da gata da casa – na cozinha.

O que eu fazia na tarde de 19 de julho de 1966? O Brasil perdendo para Portugal no Mundial da Inglaterra e eu a dar voltas em torno na Cinelândia, no teto do Simca Chambord de Carlos Heitor Cony, segurando pela cintura José Carlos Avellar, para evitar que ele caísse com sua câmera e perdêssemos não só nosso cinegrafista, mas também as imagens da desolação da torcida carioca, fundamentais para um documentário sobre Otto Maria Carpeaux.

Também vi jogos da Copa em pousadas do interior da Guatemala, numa churrascaria brasileira de Nova York e, suprema proeza, no Palácio da Vaca, em São Francisco, que nem sei se ainda existe. Era um pavilhão dedicado a exposições de pecuária, que dotaram de um telão para que os latinos das redondezas – e sobretudo os brasileiros que estudavam em Berkeley – pudessem assistir à derrota do Brasil para o Carrossel Holandês, em 3 de julho de 1974, a 50 dólares por cabeça.

Na Copa anterior, a do tricampeonato, mais precisamente em 7 de junho de 1970, curti pela TV, em família, o jogo mais eletrizante de todos os tempos: Brasil 1 x 0 Inglaterra. Aquela defesa matematicamente impossível de Banks, interceptando no chão uma cabeçada mortífera de Pelé, e a desarrumação da inexpugnável defesa adversária aprontada por Tostão, que resultou no gol de Jairzinho – well, nem a consagradora goleada na Itália conseguiu superar.

Peguei o tri na raiz. Assisti a treinos no Retiro dos Padres, ainda na fase João Saldanha, e confesso que, desde o início, descolei a política (vale dizer, a ditadura militar) do futebol. As “onze feras” do Saldanha me compraram. Ao ver nosso ataque alinhado antes do pontapé inicial em Jalisco – Jairzinho, Gerson, Pelé, Tostão, Rivelino –, Cláudio Mello e Souza exclamou, embasbacado: “Olha o Q.I. desta linha! Não dá pra torcer contra”. 

Não dava. Aquele não era o time do ditador Médici. Aquele era o time de todos nós. 

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