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No Milênio Socialista

Em Havana, diante da fartura de lagostas e do melhor rum, eu me vi pensando: 'Cheguei lá.'

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2016 | 02h00

Eu já não era exatamente um jovem (embora hoje me pareça...) quando vi Fidel Castro pela primeira vez. Aos 40 anos, não tinha mais direito ao frisson que me atearam, na adolescência, as imagens daqueles jovens barbudos descendo da Sierra Maestra e entrando numa Havana ebuliente de júbilo cívico. Tanto quanto as barbas de Fidel, um tanto rala se havia tornado a revolução por ele encabeçada.

Àquela altura, novembro de 1985, há muito amainado o meu romantismo político, eu tinha na cabeça o que ainda hoje me parece ser uma boa pauta jornalística: uma reconstituição detalhada, com todos os coquetéis de camarão e champanhes franceses de primeira linha, do réveillon havanês de 1959, ao cabo do qual posso ver o ditador Fulgencio Batista tocando para o aeroporto, suarento em sua refinada guayabera, não sem antes abastecer as malas com ouro e moedas fortes, rumo a vitalício e nababesco exílio. 

Cheguei a pensar numa entrevista com a socialite francesa Odile Marie-Josèphe Léonie Bérard, que um casamento com brasileiro fizera chamar-se Odile Marinho, e que participou daquele baile da Ilha Fiscal ao lado do primeiro marido, o playboy dominicano Porfirio Rubirosa, mitológico também, murmurava-se, por ser dotado de recôndito atributo, tão portentoso que o nome de seu possuidor acabou por se estender, nos restaurantes, ao mais alentado dos moedores de pimenta. Talvez a bela senhora, ainda em forma, pudesse me contar como foi que, lá pelas tantas, entre uma rodada de canapés de caviar e outra de salmão, pôs-se a correr no palácio o boato de que os barbudos estavam a caminho de Havana. Bobagem!, terá avaliado algum conviva, por detrás de indecorosa barriga, enquanto ao som dos fogos que saudavam a entrada no ano de 1959 se somava o ploc de mais rolhas de Don Pérignon sendo ejetadas.

Mais de um quarto de século havia se passado desde então, e bem outro era o clima que encontrei ao pôr pela primeira vez os pés em Havana, ao cabo de uma viagem tortuosa e extenuante. Estando rompidas as relações entre o Brasil e Cuba, foi preciso pernoitar em Buenos Aires, e na manhã seguinte embarcar para Havana.

Manhã seguinte? Não seria bem assim, pois ao chegarmos ao aeroporto de Ezeiza fomos informados de que o russo, rucíssimo Ilyushin 62 da Cubana de Aviación apresentara um problema técnico, razão pela qual haveria atraso de 8 horas. Só não desisti da viagem porque junto ao balcão da Varig topei com o professor Antonio Candido, em cujo papo gostoso de tal forma me enredei que, ao dar por mim, estava embarcado. Éramos 80 convidados do governo cubano, salada brasileira da qual me lembro, entre outros inesquecíveis, de Chico Buarque, Chico Caruso, Affonso Romano de Sant’Anna, Adélia Prado, Roberto Dávila, Bresser Pereira, Maitê Proença e o ex-atacante Reinaldo, do Atlético Mineiro.

Malgrado a fumacinha branca que escapava dos compartimentos de bagagens, como em pântano romeno onde chapinha o Drácula, o idoso Ilyushin portou-se muito bem, limitando-se a pedir parada, para beber querosene, no aeroporto de Lima. Era madrugada quando descemos em Havana. Na recepção do hotel Riviera, uma comissária do povo deu as boas-vindas aos compañeros brasileños, para em seguida acomodá-los - dois por apartamento, como convém à hotelaria socialista. Quando, na chamada, sua voz entoou “Nélida Piñon”, uma voz masculina rebateu: “¡Presente!”. Sabedor de que a escritora não tinha viajado, nem a convidada que com ela dividiria quarto, Chico Buarque conseguiu assim, só para ele, um apartamento inteiro.

No início da programação, cujo ponto máximo seria o lançamento do livro Fidel e a Religião, entrevista do comandante a Frei Betto, dei de cara com Hélio Pellegrino, que não chegara no voo dos 80. Quando perguntei em que hotel o haviam encaixado, o poeta e psicanalista, de posse de toda a sua exuberância verbal e gestual, me segurou pelos ombros e contou que não estava em hotel nenhum, e sim “numa dacha, meu caro, numa dacha!” - uma das antigas mansões da banida burguesia que a revolução converteu em “casas de protocolo”, para nelas acomodar convidados especiais. Lá foi instalado, acrescentou, por obra e graça do “frayle” - nosso amigo comum Frei Betto, tão influente nas celestiais alturas quanto nas altas cavalariças do regime cubano. “Vá me visitar na minha dacha!”, insistiu o Hélio - e assim fiz, na noite seguinte.

Exausto ainda da viagem, não dei conta de entrar pela madrugada, o que teria permitido presenciar uma das famosas incertas de Fidel, dado a aparições a horas mortas, ocasiões em que, descomprometido com etiquetas burguesas, embarafustava cozinha adentro para conferir o conteúdo das panelas. Bastou-me a cornucópia de agigantados camarões e lagostas formidandas, para não falar no rum que na ilha só irriga as gargantas mais graduadas da nomenklatura. Confesso que não pensei no réveillon saideiro de Batista. Deve ser, pensei, o Milênio Socialista de que tanto falam. 

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