No mesmo pote, simplicidade e profundidade

Crítica: Jotabê Medeiros

O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2012 | 03h10

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

Um sujeito, ao ouvir o disco do Alabama Shakes pela primeira vez, escreveu uma carta num fórum dizendo que aquilo lhe dava a impressão de que era algo como se "Otis Redding e Janis Joplin tivessem tido uma filha e essa filha estivesse sendo acompanhada por Duane Allman, dos Allman Brothers".

De fato, Boys & Girls (lançado no Brasil na semana passada pela Lab344) sugere a princípio um caso agudo de miscigenação musical - como de resto a outra grande banda americana do momento, os Black Keys, também sugere. Há Motown e Stax, há Wilson Pickett e Mavis Staples, há Led Zeppelin (de vez em quando, eles encaram um cover de How many more times, do Led) e Black Sabbath, rock progressivo e Hank Williams.

A diferença está, obviamente, na voz de Brittany Howard. Havia muitos anos que não surgia uma cantora assim. Pura potência, uma voz que empurra mais adiante o legado de Bettye LaVette, René Marie e Sharon Jones. Além de compor os temas, ela ainda toca guitarra e percussão nas faixas. Nos 11 temas do disco, mostra que, apesar da pouca idade, domina a lírica do abandono da alma.

"Você não está só, então porque está solitária/Lá vai você pelo lado escuro da rua/Está com medo de dizer a alguém tudo que você sente sobre alguém?", canta ela, em You Ain't Alone. Simplicidade e profundidade no mesmo caldeirão de alquimia. O contrabaixo de Zac Cockrell, o garoto barbado, mostra que ele conhece bem os meandros do R&B dos anos 1960, sua principal fonte de alimentação. A banda (que tem ainda o guitarrista Heath Fogg e o baterista Steve Johnson) segue à risca a marcação da voz de Brittany, com consciência do tipo de diamante que têm ali à sua disposição.

Há um componente de adolescência existencialista nas composições, um tom confessional assumido por Brittany. "Agora estou aqui nesse chão dilacerante e quero morrer", canta ela, em Heartbreaker. Ou então, em Be Mine: "E todas aquelas garotas não podem mudar sua cabeça/E todas aquelas minas não vão virar sua cabeça/E todos aqueles leões na selva da noite/Não me preocupo com meu amor".

Pontuadas pelo som de órgãos de instrumentistas convidados (Paul Horton, Micah Hulscher, Mitch Jones e Ben Tanner), canções como I Found You, Rise to the Sun e Hang Loose parecem levar nossos ouvidos a uma elevação ecumênica. A menina é fera.

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