No meio do caminho

Depois de bom início, concerto de bolsistas põe em xeque nova proposta acadêmica

O Estado de S.Paulo

17 Julho 2012 | 03h09

A tarde fria de domingo espantou o público, que não chegou a um terço da lotação da Sala São Paulo para assistir ao segundo concerto da Orquestra de Bolsistas do 43º. Festival de Campos do Jordão, formada pelos alunos e integrantes dos grupos camerísticos convidados para o evento, incluindo os da Academia da Osesp, conforme esclarece o diretor pedagógico Claudio Cruz em seu texto no folheto oficial.

De certo modo, as três obras do programa passearam pela América do Norte, com uma peça mexicana e duas norte-americanas. Está certo que o concerto para violoncelo e orquestra do compositor checo Antonín Dvorák não tem praticamente nada a ver com a estada de quatro anos do compositor nos Estados Unidos, na última década do século 19. Contratado em 1892 por um caminhão de dólares por uma milionária de Washington para "ensinar aos norte-americanos como fazer música nacional", deu-lhes uma magistral lição na Sinfonia Novo Mundo, onde usou e abusou de temas indígenas e negros, porém sempre dentro da formatação europeia. Mas neste concerto, cuja composição iniciou-se em suas férias checas e foi concluída na volta aos EUA, em 1895, ele expressa toda a sua ânsia de voltar para casa - e coloca muita matéria-prima sonora de sua região natal. Teve tempo, ao saber que sua paixão secreta, Josefina, irmã de sua mulher, morrera, de incluir uma marcha fúnebre no movimento final.

Trata-se de obra belíssima, um dos mais consistentes concertos para o instrumento. E o violoncelista alemão Johannes Moser mostrou a que veio, com um domínio total - técnico, como músico excepcional, e estético - sobre a obra. A orquestra não comprometeu, numa partitura que também exige bastante das várias seções.

Um início entusiasmante, portanto. A segunda parte, no entanto, quebrou o encanto. Inguesu, composta em 2003 pelo mexicano Enrico Chapela, de 38 anos, dura 9 minutos. Celebra um dos raros triunfos da seleção de futebol de seu país - e num confronto justamente com a seleção brasileira, na Copa das Confederações. A peça, diz ele no folheto do programa, foi escrita para ser estreada pela Sinfônica Carlos Chávez. "Considerei apropriado oferecer uma comovida homenagem ao compositor, decidido defensor do patriotismo artístico, com a realização de uma partitura neonacionalista".

Primeiro, a ideia não é nova - já foi usada com enorme sucesso mais de meio século atrás por Gilberto Mendes em Santos Football Music, estreada por Eleazar de Carvalho em Varsóvia, até hoje uma de suas obras mais conhecidas. Chapela fica a meio-caminho de uma obra neonacionalista e de teatro musical. Os gestos do regente, dando cartão amarelo e depois vermelho ao trombonista (simbolizando, no caso, o zagueiro brasileiro expulso naquela final contra o México), são corpos estranhos absolutos na obra, até então bem comportada, com muita percussão. Ao contrário, a obra de Mendes se assume como teatro musical, envolve o público, transforma músicos e regente em dublês de atores. Inguesu não é nem uma coisa nem outra.

A maior parte da segunda metade foi ocupada pelas danças sinfônicas que Leonard Bernstein extraiu de seu musical da Broadway mais bem-sucedido, West Side Story, de 1957. Ele adorava os ritmos latinos. E, aproveitando que uma das gangues é "cucaracha", recheou o musical com mambos, chá-chá-chás, rumbas e derivados. Do outro lado, criou maravilhosas canções românticas, como Somewhere. É música vibrante, irresistível. E os bolsistas a executaram com muita garra e empenho - mas com direito a confusões rítmicas e desencontros.

Duas observações pontuais: 1) pôr a orquestra de bolsistas para trabalhar no mesmo ritmo frenético da Osesp, preparando um programa diferente por semana, é condená-los antecipadamente a apresentações precárias. Teria sido mais adequado mostrar-lhes, por exemplo, como se trabalham em profundidade repertórios mais desafiadores. Como O Mandarim Maravilhoso, de Bela Bartók, peça do terceiro concerto, ideal para três e não uma semana de trabalho. E 2) A Abertura Festiva de Carmago Guarnieri está programada para o último concerto da Orquestra do Festival. Se não havia tempo para encomendar algo inédito e a ideia era programar algo contemporâneo do agrado do grande público, por que não fazer uma obra como Os Meninos da Vila, que Neymar, Ganso & Cia.nspiraram a Gilberto Mendes em 2011, contrapondo dois grupos de instrumentistas e um regente-juiz de futebol, com direito a batuta e apito?

Crítica: João Marcos Coelho

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