No meio do caminho, a poesia de Drummond

O ano de 1930 entrou para a história da poesia brasileira ? a afirmação, do poeta Eucanaã Ferraz é totalmente pertinente. Afinal, foi naquela data que Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) estreou na literatura com Alguma Poesia. E, oito décadas depois, seus poemas ainda conservam o frescor exclusivo dos clássicos.

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2010 | 00h00

Ferraz é o organizador de Alguma Poesia ? O Livro em Seu Tempo (Instituto Moreira Salles, 392 págs., R$ 50), edição fac-similar da primeira edição da obra de Drummond. Traz ainda reproduções de originais do poeta e, mais importante, da correspondência que ele trocou com Mario de Andrade, cujas observações foram decisivas para a publicação. "Em suas cartas, Mario definiu extraordinariamente a marcha da formação de Drummond como poeta e personalidade", escreve ele, na introdução, acrescentando que o jovem poeta mineiro ? "tímido e inexperiente", como se definia ? já compunha, naqueles anos de formação, "versos incomuns, de construção habilidosa, imantados pela inquietude estética e, a um só tempo, existencial que definiria sua poética mais madura".

Então com 28 anos, o poeta enfrentou as dificuldades habituais de um iniciante: sob o selo imaginário Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro, romancista, tipógrafo e seu amigo pessoal, foram impressos 500 exemplares, pagos do seu próprio bolso sob a chancela da Imprensa Oficial (em que trabalhava como redator), mediante descontos em sua folha de vencimentos.

O livro abre com Poema de Sete Faces (Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra /falou: Vai, Carlos, ser gauche na vida) e traz o emblemático No Meio do Caminho (No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho / tinha uma pedra / no meio do caminho tinha uma pedra), que Mario de Andrade considerou formidável mas fruto de um cansaço intelectual. "De fato assim é", comentou Manuel Bandeira, em uma carta. "Mas que é que se procura num poema, ? é poesia, sim ou não? Há ocasiões em que no cansaço cerebral só fica uma célula lírica aporrinhando com uma baita força emotiva."

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