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No mar de poesia do corpo

De Rodrigo Pederneiras, o grupo mineiro mostra em SP seu novo espetáculo, sem mim

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

Desta vez, o Grupo Corpo nos leva para o mar. Com um título em letras minúsculas, sem mim, sua mais recente produção, estreia na sua tradicional temporada anual no Teatro Alfa, de amanhã até dia 14, acompanhada por O Corpo (2000, com música de Arnaldo Antunes). Assinada pelo trio formado por Rodrigo Pederneiras (coreografia), Paulo Pederneiras (cenografia e iluminação) e Freusa Zechmeister (figurinos), sem mim fincou suas referências nas ondulações do mar e na Idade Média. Quem direcionou tais escolhas foi a trilha sonora que, confirmando o outro braço de atuação da companhia mineira, também será lançada em CD, passando a fazer parte da coleção formada pelas trilhas de seus espetáculos.

O mar e a Idade Média vêm das sete "canções de amigo" atribuídas a Martín Codax (meados do século 13 - meados do século 14) que, em 1913, foram encontradas pelo livreiro Pedro Vindel, de Madri, em um pergaminho que forrava um dos livros de sua biblioteca, o De Officiis, de Cícero. O pergaminho continha os poemas e a notação musical de seis das sete cantigas do que é conhecido como "ciclo do mar de Vigo", de Codax. José Miguel Wisnik criou uma melodia para a Canção VI, tornando-se, assim, seu parceiro.

Tudo começou em 2008, quando o galego Carlos Núñez, natural da cidade portuária de Vigo, a mesma onde se supõe que Codax tenha nascido, a mais populosa da Galícia, apresentou ao brasileiro José Miguel Wisnik, de São Vicente, litoral de São Paulo, a íntegra dessas canções, cujos poemas ele já conhecia. Os dois compositores juntaram-se na empreitada de compor uma trilha a partir dessas sete "canções de amigo", em que as jovens apaixonadas choram a ausência ou celebram o possível regresso de seus amados amigos às suas mães, às suas amigas ou ao próprio mar, no qual se banham para aplacar os seus desejos.

Mas como as sete canções duram somente 15 minutos, a elas foram juntadas outras formas musicais como vilancicos, muiñera, samba, lundu e cavalo-marinho, e também as interferências das jovens pandereteiras de La Coruña e das Caixeiras do Divino da família Menezes, do Maranhão. O resultado está no CD, que inclui, como brinde, outras mixagens das sete canções, além da que forma a trilha original, da qual participam Milton Nascimento (cantiga II), Mônica Salmaso (cantiga IV), Jussara Silveira, Rita Ribeiro e Ná Ozzetti (cantiga III), Chico Buarque (cantiga V), Rita Ribeiro (cantiga VII) e Wisnik (cantigas I e VI).

A coreografia. As ondulações do mar contaminaram os movimentos criados por Rodrigo Pederneiras, o coreógrafo residente do Grupo Corpo. Em entrevista ao Estado na sede da companhia, em Belo Horizonte, da qual também participaram Freusa Zechmeister e Fernando Maculan, que trabalhou com Paulo Pederneiras na cenografia, Rodrigo contou que estava decidido a fazer algo mais despojado em sua produção. "Fui em busca de algo mais "sujo", sem braços marcados, e de um movimento ondulado que fosse produzido a partir do impulso do pé. Com essa música feita por canções de amor, não tive escolha, precisei fazer do mar o meu assunto."

Quem acompanha a sua carreira, vai notar uma separação não usual entre masculino e feminino e um uso incisivo de trechos de outras obras suas, especialmente Bach (1996, com música de Marco Antônio Guimarães sobre a obra de Bach), Nazareth (1993, música de Wisnik sobre a obra de Ernesto Nazareth), Benguelê (1998, música de João Bosco) e 21 (1992, música de Marco Antônio Guimarães/Uakti).

"Foi a própria trilha que me levou ao Bach, porque o seu Prelúdio da Suíte n.º 1 já estava lá. Experimentei também algo de que não gostava tanto, que são os grupos dançando em uníssono", comenta Rodrigo, que não poupa elogios ao elenco: "É um privilégio trabalhar com profissionais tão especiais, tanto no aspecto da formação consistente de cada um deles, como no do convívio".

A próxima criação já está acertada, mas não será para o Grupo Corpo. Rodrigo Pederneiras foi convidado pela José Limón Dance Company a compor uma peça de 25 minutos. "Fiquei meio relutante, a princípio, mas quando disseram que a música seria de Paquito de Rivera, começamos a conversar sobre a confecção da trilha, e então, decidi aceitar. Também contou muito o tempo que me deram. Fico com eles de 28 de novembro até 23 de dezembro, e depois, de 6 a 23 de janeiro. Nos dias 21 e 22 de janeiro, colocaremos a obra no palco, mas antes, dia 8, a mostraremos para os produtores. Lá, eles precisam ter a obra pronta para poder vendê-la e, então, estreá-la oficialmente."

Depois dessa, uma outra criação já está sedo planejada: para a São Paulo Cia. de Dança, com música de Villa-Lobos, e estreia na cidade da fábrica Volkswagen, na Alemanha, em maio de 2012.

Cenografia e figurino. Para criar o figurino, a arquiteta Freusa Zechmeister pesquisou ornamentos medievais. Assistiu a filmes, buscou referências, até chegar ao conceito que estrutura o figurino: a tatuagem na pele/malha dos bailarinos. "Alguns ornamentos estão ampliados e outros foram miniaturizados, e as ondulações do movimento também estão lá, presentes."

Fernando Maculan, também arquiteto, diz que a cenografia tem como objetivo criar paisagens que possam remeter não apenas ao mar, e que foram testadas várias possibilidades até chegar à tela que se usa para cobrir plantações. "Ela ficou perfeita pela cor, um negro que reage muito bem com a luz, pelo tipo de caimento, e pelo brilho, que vai assumindo as tonalidades da iluminação, além de também poder ser associada às redes dos pescadores."

Paulo e Fernando usaram desenhos, maquete, computador e testes em escala real para simular os movimentos de cada um dos pontos de suspensão da tela e evitar a simetria entre eles. No momento, Pedro Pederneiras, o diretor técnico da companhia, trabalha na automatização desses movimentos com motores especificamente criados para o projeto, que não estarão prontos a tempo para a estreia em São Paulo, mas que em nada interferem no que se vai ver por aqui.

Fernando começou a trabalhar com Paulo Pederneiras na exposição Viver Minas, montada em Turim, na Itália, em 2008. "Depois, fiz uma colaboração técnica sobre o cenário de Ímã, participei das duas intervenções na rua realizadas por Paulo no FIT 2010 e, no momento, estamos realizando o projeto do Memorial de Congonhas e o da futura galeria de arte do Minas Tênis Clube. Ainda sou um iniciante, pois com Paulo, é um aprendizado a cada dia."

Prepare-se para o resultado da sintonia fina entre todos esses profissionais que vêm burilando a assinatura do Grupo Corpo. Quando a cortina se abrir para o início de sem mim, e os bailarinos começarem a caminhada lenta e solene que introduz a ondulação, tudo isso e mais a poesia que daí resulta se materializarão na nossa frente.

GRUPO CORPO

Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Sto. Amaro, tel. 5693-4000. 4ª, 5ª e sáb., 21 h; 6ª, 21h30; dom., 18 h. R$ 40/ R$ 100.

Até 14/8.

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