No MAM do rio, o vigor da pintura

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2010 | 00h00

Mais livre. Pintura de Cristina Canale, expoente da Geração 80, que vai estar no MAM Rio

 

 

Se a Pintura Morreu, o MAM É um Céu, provoca o título da exposição aberta ao público ontem pelo Museu de Arte Moderna do Rio. Com 33 obras de Daniel Senise, Luiz Zerbini, Adriana Varejão, Jarbas Lopes, Eduardo Berliner e Gustavo Speridião, a mostra discute os caminhos que a pintura brasileira vem percorrendo nos últimos 30 anos. As obras estão no salão monumental do museu, um andar abaixo de Arredores e Rastros, de Cristina Canale, expoente da Geração 80, como Senise, Zerbini e Varejão, num diálogo que recupera a questão.

Não que a discussão tenha saído da ordem do dia. Fala-se sobre a morte da pintura desde meados do século 19, com o advento da foto. "Essa discussão volta em espiral. Enquanto isso, os artistas se apropriam de novos procedimentos, mas sem perder a sua relação atávica com a tela", diz Luiz Camillo Osório, curador do MAM.

No salão, veem-se obras como a de Jarbas Lopes, que se apoderou de propagandas eleitorais, em papel, para criar grandes painéis, numa reinvenção da pintura. Mais adiante está uma de Zerbini que mistura tinta sobre MDF e estrutura em acrílico. Os trabalhos, da coleção MAM/Gilberto Chateaubriand, são de 2004 ? a exposição abrange as décadas de 80, 90 e 00, sendo o foco maior nas duas últimas. "Sempre que se fala nisso se aponta para uma questão da centralidade da arte na configuração de uma identidade cultural. É como se a pintura não desse conta da nossa nova identidade, no nosso mundo fragmentado. Mas isso nunca impediu que a arte continuasse acontecendo", acrescenta o curador.

No Brasil, a Geração 80 achou sua forma de lidar com essas questões. O clima era festivo, o Brasil vivia processo de redemocratização, e os jovens artistas queriam mais era se livrar da arte cerebral da década anterior. Foi nesse clima que Cristina Canale e seus pares começaram a criar. Aluna da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, pintava telas supercoloridas, de temáticas ligadas à natureza. Em 1993, mudou-se para Berlim para estudar.

O recorte dado por Osório foi o período de 95 a 98, época em que, para ele, Cristina, das mais consistentes do grupo, muda um pouco sua abordagem. A pintora, que veio ao Rio para a montagem, conta que antes da viagem se viu num beco sem saída, apegada a vícios e truques que lhe davam a sensação de estar engessada em sua arte.

"Eu estava presa a tensionar o trabalho pelo acúmulo de matéria. Botava muita tinta, usava citações. Chegou uma hora em que comecei a bater com a cabeça na parede", lembra ela. "Lá, reformulei meu trabalho, solucionei de forma mais sofisticada. Mas não foi a Alemanha. Poderia ter ficado aqui que isso aconteceria." Sua pintura ficou mais "plana", os temas mudaram um pouco. Plantas e folhas estão ao lado de utensílios domésticos, móveis, e gente.

Cristina já expôs por todo o Brasil, nos EUA e na Europa. Ela não discute a suposta morte da pintura. "Não vejo sentido. O que se pode dizer é que após atingir certo limite, a pintura começou a se questionar, e, assim, tornou-se mais livre de dogmatismo."

   

CRISTINA CANALE - HOMENAGEM A ESTHER EMILIO CARLOS

Se a Pintura Morreu, o MAM É um Céu   MAM  Rio. Avenida Infante Dom Henrique 85, Rio de Janeiro, telefone: (21) 2240-4944. 12h/ 18h (sáb. e dom., 12h/ 19h; fecha 2ª). R$ 8. Até 15/8.

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