No MAM, a fotografia como objeto de arte e investigação

O interesse em discutir como a arte contemporânea se relaciona com a fotografia levou a historiadora e crítica de arte Carolina Soares a se debruçar sobre o acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e selecionar os objetos de sua investigação. O resultado de cerca de três meses de pesquisa deu corpo à exposição Fotografia em Perspectiva, que se abre nesta quinta-feira para visitação e se estende até dia 4 de março. Por meio de cerca de 40 imagens, tiradas da diversificada coleção do MAM, a curadora lança algumas questões a serem refletidas sobre o papel da fotografia dentro do cenário da arte contemporânea - algo muito mais complexo do que meramente considerar que a fotografia, dentro desse universo, passou a ser vista como obra de arte. Carolina se ateve, primeiramente, às imagens em si, sem se preocupar em saber a qual artista ou fotógrafo elas pertenciam. Depois de identificar as obras que se adequavam à proposta da exposição, nomes bastante conceituados foram se revelando: Rochelle Costi, Marcia Xavier, Luiz Braga, Sandra Cinto, Klaus Mitteldorf, entre tantos outros. "Não é só a relação da arte e a fotografia, mas é o pensar dentro do âmbito contemporâneo. O que está acontecendo? São artistas que fotografam fotografias, que trabalham com auto-retratos", define Carolina. Para ela, é uma forma de mostrar que existem muitos artistas e fotógrafos cujos trabalhos estão ligados à investigação fotográfica. Há artistas que se apropriam da fotografia e a utilizem como objeto de interesse - e não mais só como ferramenta secundária, de registro. Ou ainda fotógrafos que se voltam para a própria fotografia num exercício de metalinguagem. Dentro desse panorama da auto-referência, em que a fotografia se apropria de si mesma como tema, técnica e objeto da produção, a exposição traz à tona os questionamentos encontrados nas próprias obras, como a busca da identidade e, em contrapartida, a subtração da identidade por meio da manipulação. Segundo a curadora, a fotografia se tornou um dos meios privilegiados da arte contemporânea ao longo das últimas três décadas do século 20. Ainda na década de 70, ela está inerente a um caráter documental. "Muitos artistas conceituais vêem interesse em utilizá-la como uma ferramenta eficaz para documentações", ela descreve. Naquele momento, é vista como um mecanismo de registro de uma experiência artística. Já nas décadas de 80 e 90, ganha novos contornos. "Aos poucos, o foco da discussão deixa de estar na natureza e nas qualidades do meio técnico e volta-se para a idéia da fotografia como metáfora de si mesma." Identifica-se ali uma conciliação entre artistas e fotógrafos, que passam a desenvolver trabalhos a partir das especificidades da história e do fazer fotográfico. "Nessa perspectiva, a fotografia instala-se no cenário da arte contemporânea, impondo-se como objeto de interesse, capaz de suscitar questionamentos e indagações sobre as muitas possibilidades para a arte atual." Carolina Soares chama atenção também para o fato de a fotografia se fazer mais presente nos acervos de muitos museus no final do século 20. Como no MAM que, nos anos 90, por intermédio o então curador Tadeu Chiarelli (hoje um dos diretores do museu), tornou prioridade a aquisição de fotografias em seu acervo. Fotografia em Perspectiva inaugura o calendário de 2008 do MAM-SP. O evento também marca o lançamento do novo Projeto Parede. Fotografia em Perspectiva. MAM . Pq. do Ibirapuera, portão 3, telefone 5085-1300. 3.ª a dom., das 10 às 18 h. R$ 5,50

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