No jardim do bem e do mal

Em Serpente Verde, Sabor Maçã, Jô Bilac retrata a ética peculiar de uma personagem que envenena suas visitas

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2011 | 03h07

A capacidade de distinguir o bem e o mal. Essa é a crença que alimenta a protagonista de Serpente Verde, Sabor Maçã, montagem que estreia hoje.

Em foco, estão as ações da Senhora G. Uma controversa personagem, interpretada por Lulu Pavarin, que crê ter a incumbência de livrar o mundo de todos aqueles que lhe pareçam indignos. Como se fizesse da sentença de morte uma espécie de ato máximo de justiça. "Ela acredita ser essa a sua missão", observa a diretora Lavínia Pannunzio.

Fica evidente, nesse ponto, o cunho nitidamente filosófico da trama. Mas, nessa hora convém não esquecer que estamos diante de uma peça de Jô Bilac. Revelação maior da dramaturgia carioca recente, o dramaturgo é dono de um estilo marcadamente satírico. Uma verve cômica com a qual contamina todos os assuntos. Mesmo os mais sérios.

Em jogo, estão questões que movimentaram séculos e séculos de pensamento. Tudo isso, contudo, merece tons de absurdo em suas mãos. Matizes de exagero, de descontrole, de acidez.

Discípulo confesso de Nelson Rodrigues, Bilac não tem pudor de impregnar sua obra da mesma combinação de tragédia e ironia que víamos no autor de Vestido de Noiva.

Lançou mão do procedimento em vários de seus trabalhos. E talvez esteja aí o caminho para compreender a repercussão de criações como Cachorro!, Rebu e Savana Glacial. "Meus personagens são todos muito ordinários. Amorais e por isso mesmo divertidos. São capazes de dizer as coisas mais absurdas nos momentos mais inapropriados", considera o jovem autor, que escreveu Serpente Verde, Sabor Maçã em parceria com Larissa Câmara em 2008.

É servindo chá aos seus convidados que a Senhora G. decide quem deve viver ou morrer. Em um bule dourado, guarda uma bebida inofensiva. No jarro prateado, tem um preparado venenoso que oferta àqueles que dão sinais de falta de caráter.

Trancada em casa, ela espera por possíveis compradores para o imóvel. "Infelizmente até hoje não se apresentou ninguém digno do meu doce lar", diz a personagem, que se autoproclama uma mentirosa compulsiva.

Trata-se de uma figura tão pérfida quanto fascinante. "Achei que estava criando uma criatura poética, pura. Nem imaginava que seria uma serial killer", comenta Jô. Mas, por mais estranha que pareça, ela ainda é reconhecível, demasiadamente humana.

O mesmo não se pode dizer daqueles que passeiam pela sua sala de visitas. Seres tipificados, quase caricaturas de seus próprios defeitos. "Eles poderiam compor um panorama dos pecados capitais, da completa ausência de virtudes", considera Lavínia.

Uma irmã capaz de roubar o namorado da outra. Só por inveja. Um casal histriônico e egoísta. Uma mãe dopada, que vive à base de remédios. Uma criança mimada e sem limites.

Todos serão vítimas da sanha justiceira da Senhora G. E, depois de mortos, ainda servirão de adubo para o viçoso roseiral que ela cultiva no quintal.

Apenas um detetive disfarçado consegue cativar a impiedosa personagem. Vítima de seus próprios delírios - alucinações que a fazem conversar, por exemplo, com as xícaras e bules da casa -, ela é incapaz de ver com clareza os propósitos do homem desconhecido. Faz dele uma projeção dos próprios desejos, enxerga-o como um Gene Kelly redivivo.

Tal caráter nonsense merece relevo na encenação. Gradativamente, a implacável Senhora G. deixa transparecer sua parcela de carência. Sonha-se estrela dos antigos musicais de Hollywood, supõe sua vida como um imenso e brilhante show televisivo. "É um jeito que ela tem de fugir da realidade", lembra o autor. "Cria uma felicidade que é nitidamente falsa."

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