No inferninho de Hamburgo

Espetáculo em cartaz nos EUA retrata os dias de baile dos Beatles na boemia alemã

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2013 | 02h11

LOS ANGELES - Em um dos melhores momentos de Backbeat, um musical sobre os primórdios dos Beatles, em cartaz em Los Angeles, John Lennon tateia a melodia de Twist and Shout, procurando a melhor roupagem para a canção. Paul McCartney entra em cena e palpita que o acompanhamento está muito lento. Faz uma piada sobre o viés latino da composição, e aos poucos os dois transformam "shake it up baby" no refrão que conhecemos. É uma esperta introdução para o dueto que sucede, e uma das várias reconstituições da dinâmica da banda na época em que lapidavam talento em sets de seis horas, nos cabarés de Hamburgo, antes de dominarem o mundo.

O roteiro de Backbeat é uma adaptação do filme de mesmo nome, de Steven Jeffreys, lançado em 1994. A história se passa durante os dois anos em que o grupo esteve na Alemanha e tem como personagens músicos como Pete Best e Stuart Sutcliffe, que integraram a banda no período de formação, mas tornaram-se rodapés na história da banda. Como no filme, os garotos de Liverpool são caracterizados como fanfarrões brilhantes e anfetaminados, dedicados tanto ao rock n' roll quanto à vida boemia da zona alemã. Arranjam brigas, se esquivam de cadeiradas, tocam pesado e não ignoram os serviços sexuais inclusos no métier.

Mas se a direção mais óbvia a ser tomada por um musical sobre a banda mais famosa de todos os tempos seria a reconstituição de hits, Backbeat surpreende e mantém-se fiel aos fatos. O que ouvimos entre os dramas que impulsionam a narrativa é o rock primitivo de Chuck Berry e outros, que influenciavam a banda na época.

É uma deixa para inserir clássicos como Johnny B. Goode, de Berry, ou Good Golly Miss Molly, de Little Richard, e usar a explosividade de tais riffs para ilustrar a rebeldia turbinada, de jeans e jaqueta de couro, que os Beatles traziam ao repertório. A trilha sonora do filme de Jeffreys exemplifica a proposta: músicos alternativos, como Dave Grohl e Thurston Moore, reconstruíram o som do Beatles, almejando uma cara pré-punk à abordagem musical do grupo. Essa agressividade rock n' roll é feita ao vivo pelos atores Andrew Knott (John), Daniel Healy (Paul), Daniel Westwick (George), e Oliver Bennett (Pete Best, pois Ringo entra para a banda apenas no fim do segundo ato), uma combinação de história e trilha, quase um show, vista em outros musicais famosos da atualidade, como Fela! e Once (Apenas uma Vez).

Outra curiosidade de Backbeat é a centralização de Stuart Sutcliffe na história. Ele foi o primeiro baixista dos Beatles, mas deixou a banda para seguir carreira de artista plástico antes de o grupo alcançar a fama.

No musical, seu romance com a fotógrafa alemã Astrid Kirchherr é a principal força motriz do enredo, e deixa Lennon e McCartney em segundo plano. Kirchherr conheceu Sutcliffe porque era a namorada de um certo Klaus, o primeiro fã da banda. Os dilemas de Sutcliffe, que era músico mas queria ser pintor e tem de escolher entre a banda ou a namorada, trazem o drama à história, com uma boa dose de traição e crises existenciais.

Além de seus problemas com a garota, sua amizade com Lennon é intensa, e a obsessão do cantor com a amizade dos dois adiciona faíscas aos problemas. Mas estes fatos também ressaltam a obra do destino na formação do Fab Four, pois se Stuart não tivesse se apaixonado por Kirchherr, e ignorasse os conselhos da fotógrafa, talvez não resolvesse sair da banda, e Paul McCartney nunca teria se tornado o baixista e principal parceiro musical de Lennon.

Outras curiosidades também integram o roteiro. Se um produtor alemão não tivesse contratado os rapazes de Liverpool para acompanhar Tony Sheridan, no single My Bonnie (parte de uma boa cena, em que os Beatles injetam adrenalina na canção careta de Sheridan), que seria apresentado no programa de Brian Epstein, talvez o manager não conhecesse os Beatles, e não os apresentasse a George Martin, que pediu para eles trocarem o baterista Pete Best por Ringo. Não fossem esses acontecimentos, talvez a banda mais influente da história se tornasse apenas mais uma.

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