No fim do ano, a surpresa vem de universitários

Uma assembleia de arte na sede do Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp), dia 8 de dezembro, sinalizou um fortalecimento do teatro em faculdades. Oito grupos de teatro, dança e música de várias universidades criaram um espetáculo como um roteiro ou jogo da amarelinha cortaziano. O motivo do encontro foi a relançamento da aParte, revista de teatro que existiu efemeramente por dois números em 1968 e não pôde ir adiante em anos de repressão. O Número 3 - A Retomada - é excelente na sua diversidade e ímpeto polêmico

Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2010 | 00h00

Para comemorar o fato, o ator e professor Celso Frateschi, atualmente na direção do Tusp, reuniu universitários para se pensar coletivamente uma Assembleia de Arte. Foi acordado que "toda manifestação artística deve se realizar por meio de proposição estética". Na primeira rodada, os grupos apresentariam sua proposta inicial com no máximo cinco minutos de duração. E assim foi, um diálogo artístico entre os elencos, o que resultou em um espetáculo exuberante, às vezes meio desorganizado, mas musical, inquieto e divertido. Gente moça a reproduzir fragmentos cênicos que evocavam o tropicalismo dos parangolés de Hélio Oiticica, trechos da estética do Teatro Oficina e de Antunes Filho e das companhias cômico-satíricas Pod Minoga, de São Paulo, e Asdrúbal Trouxe o Trombone, do Rio de Janeiro.

As representações eram interligadas por canto e música instrumental de primeira qualidade, enquanto grafiteiros realizavam intervenções no pátio interno do edifício. Havia boa energia e confraternização no evento que não deixou de ser uma vertente da chamada nova teatralidade.

O acontecimento tenta reencontrar o fio daquela ação artística intensa que houve a partir 1965 com as montagens do Tuca (Teatro da Universidade Católica): Morte e Vida Severina e O & A; Tusp - com destaque para Os Fuzis da Sra. Carrar, de Brecht; do Tema - Teatro do Mackenzie: A Capital Federal, de Arthur Azevedo; Tese - Teatro Sedes Sapientiae: As Troianas, de Eurípides.

Iniciativas que refluíram no fim da década de 60. Agora, a Assembleia de Arte trouxe à sala do Tusp, na antiga Faculdade de Filosofia da Rua Maria Antonia, um pouco do que se realiza hoje na USP (capital e interior), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade de São Caetano do Sul (USCS). Boa notícia que chegou discretamente no encerramento da temporada de 2010.

Como discretamente, mas com força, espetáculos novos vieram à cena. Um deles, Instruções para Compor Uma Peça - Se For Viver, Leia Antes, do novíssimo Coletivo Cronópios e baseada em Cronópios e Famas, de Júlio Cortázar. No palco estavam pequenas iluminações do cotidiano em uma chave de humor que observa o ridículo e o levemente patético da vida, coisas do tipo: Como levantar da cama em dias nublados? Como tomar café com leite? Como despedir-se? Como chorar? Cortázar soube brincar com essas fantasias, e os intérpretes Lucas Bêda, Marcela Bannitz e Verônica Gentilin deram a elas vida com graça e poesia. A montagem dirigida por Alice Nogueira nasceu no curso de direção teatral da Escola de Comunicações e Artes (ECA) de onde a companhia nasceu e foi à luta (blog: coletivocronopio. blogspot.com).

Em outubro abriu, na Rua Frei Caneca 384, a Estação Caneca, um bonito café-teatro, revistaria-livraria com miniauditório e vários espetáculos, um deles Ruído Branco da Palavra Noite, experimento da Companhia Auto Retrato a partir de trechos de peças de Chekhov (1860-1904) e da correspondência que manteve com figuras da vanguarda russa envolvidas na criação do Teatro de Arte de Moscou, em 1897, que teria reflexos em toda a cena ocidental. Uma das personagens é Olga Knipper, mulher e principal atriz das obras do dramaturgo.

O grupo informa a intenção de investir em um repertório em que os assuntos recorrentes são o abismo entre intenção e ação, as relações entre tempo, memória, expectativa, perenidade e efêmero (detalhes em www.ciaautoretrato.com.br). No mesmo local, foram apresentadas montagens pautadas pelo tema Mulheres. Uma delas foi Senhorita Júlia, de Strindberg, pela trupe Trilhas da Arte, fundada em Americana por Antonio Ginco e Juliana Calligaris e agora fixada em São Paulo. Mais informações sobre o projeto do Trilhas da Arte - Pesquisas Cênicas em http//trilhasdaarte.blogspot.

Novos horários. Alguns grupos consolidados, como Os Satyros, Parlapatões e Folias, lançaram novidades extras em horários pouco comuns, das 18 h à meia-noite. O Folias, além de suas produções maiores, acolheu A Dócil, a partir da novela de Dostoievski, narrativa da relação opressiva entre o dono de uma casa de penhores e uma jovem submissa. O texto foi adaptado por Pedro Mantovani, que o dirigiu, e Dagoberto Feliz, que o interpretou com Patrícia Gifford.

Os espetáculos apontados são detalhes do panorama extenso que faz de São Paulo um polo teatral único na América Latina. A constatação não ignora problemas como financiamentos, viabilidade econômica de tantos grupos, se terão fôlego estético mais adiante, e até a impossibilidade de a crítica e dos próprios artistas acompanharem tudo o que se passa. No momento, temerariamente talvez, a vontade é de torcer por eles.

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