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No eterno e efêmero mundo de LeDray

Retrospectiva de 25 anos de produção do artista está no Whitney Museum/NY

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2011 | 00h00

O trabalho de Charles LeDray é comparável ao de uma formiga. Feito à mão, ele tem a escala miniaturizada que agrada ao mundo infantil e um alcance metafísico que perturba a sensibilidade adulta. Em cartaz até domingo no Whitney Museum of American Art, Workworkworkworkwork é a retrospectiva de 25 anos da produção desse artista nascido em Seattle e radicado em Nova York.

Organizada pelo Institute of Contemporary Art, de Boston, a exibição deve o seu título a uma instalação de 1991 apresentada em uma calçada de Manhattan. Roupas, revistas, joias, pinturas e centenas de outros objetos foram expostos como produtos usados de um mercado de rua. Nessa obra a céu aberto, vulnerável à ação externa, LeDray comentou a efemeridade das coisas, tema central da sua produção.

As obras de LeDray costumam provocar debates sobre a infância, a identidade sexual e o trabalho manual. O artista norte-americano tem uma constante enquanto cria: o sentimento terno pelas coisas que passam. LeDray ama o que é rejeitado ou ignorado e por isso ele usa as mãos para inventar - do toque nasce o afeto. Não emprega os meios tecnológicos comuns à produção artística contemporânea. Ele precisa tocar o que produz, mesmo que a sua criação - tal como a vida - esteja condenada ao rápido desaparecimento.

Charles LeDray é produtivo à exaustão. Os espectadores da exibição se espantam com a certeza meio insana de que as obras de Workworkworkworkwork são o trabalho de um homem só. Ele costura todas as roupas depois estruturadas em instalações ou manejadas como se fossem esculturas. O mesmo vale para os minúsculos e numerosos vasos de cerâmica e para os objetos fabricados com osso humano no tamanho dos móveis de uma casa de boneca.

Milk and Honey (1994-96), Oasis (1996-03) e Throwing Shadows (2008-10) pertencem ao primeiro caso. Esses mais de 5 mil vasos de porcelana, pintados em cores diversas, são uma tradução da diversidade humana, fenômeno que LeDray encontra em exemplo bem acabado na cidade de adoção, Nova York. Os vasos em miniatura têm contornos e tamanhos que não se repetem. Referência ao grupo famoso pelo figurino e pelos hits musicais Macho Man e Y.M.C.A., a instalação Village People (2003-06) discute a mesma ideia de multiplicidade ao apresentar 21 chapéus diferentes, além de abordar a masculinidade como a representação de uma força incorruptível.

Ossos humanos oferecem o fundamento de Cricket Cage (2002), Sturbridge Cobblers Bench (2000) e Orrery (1997). Essas obras questionam as relações entre indivíduo e universo. Construída com ouro e marfim, Ring Finger (2004) reproduz a estrutura óssea de um dedo da mão no qual repousa um anel de casamento. A escultura simboliza os efeitos da morte sobre a relação amorosa. Tudo tem um fim, recorda LeDray sem raiva nem constrangimento.

Símbolos de poder e beleza, as roupas são o material preferido do artista para discutir o mundo e seu estado transitório. Exibida pela primeira vez nos EUA, Mens Suits (2006-09) apresenta três arranjos de vestimentas miniaturizadas - gravatas, camisetas, jaquetas - penduradas em cabides sobre um piso sujo de linóleo. Os tecidos gastos estão cobertos de pó e iluminados por lâmpadas de luz fraca, prestes a queimar. O visitante do museu vê a instalação do alto e é convidado a imaginar a história daquelas peças usadas. Charles LeDray não revela o passado dos objetos, mas lhes oferece a chance de um futuro - afinal, eles podem chegar a vestir outros corpos. Workworkworkworkwork mostra que a esperança desse artista nasce da compaixão por um mundo que não se cansa de trabalhar pelo próprio (re)nascimento.

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