No estúdio com Miúcha, Getz e João Gilberto

Shadowbrook, em Irvington, NY, era uma enorme propriedade que parecia saída de conto de fadas - um quase castelo rodeado por jardins e bosques que um riachinho atravessava. Daí o nome, riacho da sombra. Passamos alguns meses lá, trabalhando nesse CD. João Gilberto, Bebel e eu. (Miúcha faz show hoje, em São Paulo, no Teatro Arthur Rubinstein.)

Miúcha, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2010 | 00h00

A casa era tão grande, que nunca andei por todos os 26 aposentos. Mas um dia fui parar numa ala que levava a uma sala de música como nunca vi igual. Redonda, cercada de colunas que sustentavam uma cúpula ornada de vitrais que também se alternavam pelas paredes como imensas janelas coloridas. Os vitrais, preciosos, eram da Tiffany. Custam mais de US$ 20 mil cada um, dizia Stan Getz. No centro da sala o piano de cauda onde antigamente George Gershwin costumava tocar sempre que sua cunhada, a dona da mansão, preocupada com a saúde e a penúria do grande compositor, convencia-o a passar uma temporada por lá, se alimentando e criando.

Getz comprou a casa com o resultado do sucesso do primeiro Getz Gilberto, lançado obscuramente em 1964, dois anos depois do famoso show do Carnegie Hall - que se revelou um fracasso tentando lançar a bossa nova nos EUA. O disco que tinha sido gravado em 1962, com Jobim ao piano e uma então desconhecida Astrud Gilberto cantando Garota de Ipanema, foi arquivado por dois anos e saiu sem divulgação, apenas para integrar o suplemento latino lançado pela Verve em 1964. Quase todos os brasileiros já tinham voltado para casa, decepcionados. A bossa nova que tinha interessado tanto aos músicos americanos, estava fora de moda. Mas não tinha perdido seus encantos, pois a Time-Life publicou editorial sobre Getz Gilberto, chamando a atenção para suas maravilhas que o levaram ao topo das paradas.

Getz foi o músico de jazz que mais se identificou com a bossa. No começo dos anos 70, ele procurou João para gravar um novo álbum, com as músicas e, se possível, a presença do Tom. Fui encarregada de convidar o maestro que não primava pela rapidez nas decisões complicadas, especialmente quando envolviam viagens e, pior, viagens aéreas. Enquanto ele não decidia, eu ia tomando nota do que lembrava das versões em inglês de Chovendo na Roseira, que eu iria cantar.

Ainda tenho uns pedaços de pacote de cigarros cheios de marcas de copos e fragmentos de versos escritos numa letra cada vez mais incompreensível que acusava o adiantado da hora e do nosso estado etílico. Nesses tempos se escrevia muito nos bares, parece, pois também tenho um guardanapo do Luna Bar com a bela e sóbria (!) caligrafia do poeta atestando que seu parceiro não viajaria nesta ocasião para gravar disco nenhum. Então, desisti de tentar convencer o Tom e acabei voltando a New York para gravar com João e Stan Getz.

O título seria Getz/Gilberto, the Best of Two Worlds, featuring Miúcha. Na capa, eles pensavam em nos fazer abraçar o rei Pelé, no centro, com o pé em cima de uma bola em forma de Globo Terrestre. The Best of Two Worls, claro. Foi difícil fugir de tal mico. Foi mais difícil definir o disco. Sem a presença do Tom, a primeira ideia se perdeu um pouco. João insistia em regravar Isaura comigo e também queria que cantássemos juntos algum standard americano. Acabamos escolhendo Just One of Those Things.

Pintou também aquela linda melodia de Alcyvando Luz e de Carlos Coqueijo, que João adorava, É Preciso Perdoar. Mas Águas de Março era o que a gente mais cantava. Parcerias de Tom e Chico, Retrato em Branco e Preto e Lygia, com uma letra ainda inacabada, também entraram. E mais Chovendo na Roseira (Double Rainbow). A duras penas João se convenceu a fazer um de seus solos geniais, que foi batizado de João Marcelo, nome de seu filho com Astrud. E apareceu A Falsa Baiana e Eu vim da Bahia. Esse disco tem realmente histórias que não acabam mais.

MIÚCHA

Teatro Arthur Rubinstein. A Hebraica (523 lugares). Rua Hungria, 1.000, Jd. Paulistano. telefone: 3818-8888. Hoje, às 21 horas. R$ 50/R$ 100

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