No encalço do Salazar histórico

Livro escrito pelo jovem pesquisador Filipe Ribeiro de Meneses mostra que a imagem de fascista legada à posteridade é uma entre tantas distorções a respeito do ditador português

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

O jovem historiador português Filipe Ribeiro de Meneses sabe que se meteu numa grande encrenca ao biografar o ditador António de Oliveira Salazar, que governou Portugal de 1932 a 1968. Em seu livro Salazar, que acaba de chegar ao Brasil, Meneses admite o problema, ao dizer que a reconstituição do Salazar "histórico" poderia ser vista como um "sinal de empatia" com o ditador ou uma tentativa de "compreender" o controverso personagem, e isso seria "um insulto às suas vítimas". Mas, aos 41 anos, Meneses não só atravessou esse campo minado como também lhe adicionou explosivos, ao sugerir que Salazar, ao contrário de sua imagem consagrada, não era fascista.

O primeiro problema de Meneses foi o gênero biográfico em si, que, segundo ele, é desprezado em Portugal graças à hegemonia metodológica dos "modelos marxistas" e da Escola dos Annales, que descartam a história política. A questão, para os adeptos dos Annales, é que a biografia contraria a visão segundo a qual a história deve ser vista sobretudo como a história das sociedades, o que, de saída, excluiria a abordagem a partir de um único indivíduo. De modo brilhante, porém, Meneses mostra que esse é um falso problema: ele reconstitui a dramática mutação de um dos países emblemáticos do Ocidente, Portugal, por meio da história de um homem. O Salazar de Meneses é o elemento em torno do qual se reúnem o econômico, o político, o social, o cultural e o religioso de Portugal de maneira intensa. O desafio é justamente conseguir superar o ditador imaginário - tanto o construído por seus admiradores fanáticos quanto por seus detratores empedernidos. "Para se entender Portugal através de Salazar", disse Meneses em entrevista ao Estado, "é preciso ir à busca do verdadeiro Salazar; não nos devemos contentar com os retratos hagiográficos ou com as denúncias."

Diferentemente de Hitler, Mussolini e Franco, líderes com os quais Salazar costuma ser comparado, o ditador português era um acadêmico, que acreditava que Portugal seria salvo pela educação moral e pela preservação dos pilares do cristianismo. Como homem de origem rural, apresentava-se como contraponto ao cosmopolitismo de Lisboa - uma falsa imagem, como prova o historiador - e entendia que o país não aproveitava as oportunidades econômicas que se lhe apresentavam porque atravessava uma crise de princípios. Salazar se propôs, então, a salvar os portugueses de si mesmos.

O projeto de "reeducação" de Portugal estabelecido por Salazar incluía uma radical mudança de hábitos de consumo, para padrões mais modestos. Ao assumir o Ministério das Finanças, em 1928, ele se apresentou como um homem comum que tem de administrar as finanças domésticas. A grande obsessão de Salazar era manter um orçamento equilibrado. "Era a competência financeira, acima de tudo, que conferia legitimidade a Salazar", comenta Meneses. "Os portugueses sofreram, mas o Estado agradeceu."

Uma economia totalmente previsível era o centro do projeto de poder de Salazar, que visava, sem nenhum constrangimento, a fazer a sociedade portuguesa retroceder ao padrão medieval - no qual havia o reconhecimento tácito de uma hierarquia rígida, sem classes, com uma elite no governo subordinada a um líder. Tudo legitimado pela ideia de que sua missão era dirigida pela "Providência". Nesse tipo de Estado, não há obviamente lugar para a liberdade política - e, para Salazar, todos os regimes fundados nessa liberdade haviam fracassado.

A despeito dessa mentalidade totalitária, porém, Meneses argumenta que nada disso transforma o governo de Salazar num equivalente do nazismo alemão ou do fascismo italiano. Diferentemente desses regimes, diz o historiador, o salazarismo não quis começar do zero, destruindo tudo o que existia: "Salazar era nacionalista, mas não fechou Portugal ao resto do mundo; era conservador, mas preservou a forma republicana do regime inaugurado em 1910, apesar da aversão que sentia por ele; era católico e ajudou a Igreja, mas não a impôs aos portugueses".

O próprio Salazar, embora mantivesse um retrato autografado de Mussolini em sua mesa de trabalho, considerava-se muito diferente dos ditadores fascistas europeus. A principal distinção, a seu ver, era que ele tinha de se envolver amiúde com todos os assuntos da administração pública, enquanto Hitler e Mussolini podiam se dar ao luxo de dedicar-se à liderança carismática, uma vez que Alemanha e Itália tinham elites preparadas para administrar o país, ao contrário de Portugal. "Mussolini e Hitler, antes de mais nada, não trabalham como eu", declarou Salazar.

Segundo Meneses, o Estado Novo de Salazar não era fascista também porque não constituía um movimento de massas, não recorria à violência como princípio e não mobilizava trabalhadores. Aliás, para Salazar, a mobilização constante, pilar do nazismo e do fascismo, era uma aberração. "Em vez de empolgar a multidão, de cativá-la, Salazar quis desmobilizá-la, levá-la a pensar menos em política e mais em ordem, família e produção de riqueza", explica o historiador - para quem o ditador navegou perto do fascismo nos anos 30 tanto quanto quase toda a Europa no período.

Ademais, Salazar via riscos importantes no fascismo, sobretudo a ideia de que o Estado, nessas circunstâncias, não tinha limites morais. Em sua visão, o "cesarismo pagão" na Itália eliminava qualquer constrangimento legal ou moral ao exercício do poder, e isso Salazar, com sua formação católica fervorosa, considerava inadmissível. A rejeição conceitual do fascismo custou ao ditador o apoio da extrema direita portuguesa, para quem ele não era suficientemente autoritário. "Mostro no livro que Salazar quis, e em grande medida conseguiu, refrear a onda fascista que contagiava grande parte da elite portuguesa", explica Meneses. "Salazar combateu quem fosse abertamente fascista."

Mas o aspecto que mais gerou distorções na imagem de Salazar, segundo Meneses, foi sua relação com a Alemanha nazista. Como se sabe, Portugal adotou neutralidade na 2.ª Guerra e comprou armas do Eixo. Tudo isso - somado ao fato de que Salazar considerava o 3.º Reich como parte da luta contra o comunismo na Europa "cristã" - contribuiu decisivamente para "mal-entendidos" sobre o ditador, como escreveu Meneses. "Para a oposição esquerdista ao regime, Salazar, sendo fascista, tinha naturalmente apoiado Hitler durante a guerra; não havia margem para discussão sobre esta fórmula axiomática", comenta o historiador. Meneses lembra que a abertura da Constituição portuguesa diz: "A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista". Ele considera, porém, que a documentação disponível leva a uma conclusão bem diferente.

Para Salazar, a vitória do nazismo seria um desastre para nações periféricas como Portugal. A neutralidade na guerra, antes de ser prova de simpatia em relação a Hitler, foi justamente uma forma de evitar que a Alemanha tivesse uma desculpa para atacar e eventualmente ocupar Portugal. E Salazar considerava o nazismo um retrocesso moral.

Por último, mas não menos importante, um engajamento português na guerra poria em risco o domínio sobre suas colônias na África e na Ásia - e isso seria, na visão de Salazar, o "fim de Portugal". Essa noção existencial sobre as colônias não era restrita aos salazaristas. De modo geral, mostra Meneses, a elite portuguesa concordava com a manutenção das colônias porque essa presença "pluricontinental" era central na narrativa contemporânea do espírito do país. Por conta disso, difundiu-se até mesmo a noção de um "lusotropicalismo", termo derivado do pensamento de Gilberto Freyre por meio do qual se explica o "talento colonial" português e sua capacidade de criar sociedades "multirraciais". O nacionalismo que sacudiu as colônias na África no pós-guerra surgiu como pesadelo nesse cenário onírico.

Salazar resumia em si essa imagem mítica de Portugal. O ditador representava, para os nacionalistas, o fim da humilhação do país. Por isso conseguiu ficar no poder quase até o fim da vida - talvez porque boa parte dos portugueses temesse que, quando ele partisse, o país enfim despertasse para a fria realidade de uma potência morta.

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