No doce calor do leito

Prosa de Sábado

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2011 | 00h00

Alguns leitores da coluna passada me perguntam como os apóstolos da preguiça aqui mencionados conseguiam pagar suas contas no fim do mês. Ora, eles viviam (Camus) e ainda vivem (Kundera) de escrever e também de aulas e conferências (Bertrand Russell), quando não usufruíram de uma família abastada, casos de Sêneca e Lafargue, sendo que este, além de um pai cafeicultor em Cuba, fez jornalismo e crítica literária, ou seja, só trabalho que não considerava trabalho. Montaigne, magistrado até os 34 anos, pôde dar-se o luxo de dedicar os 25 anos que ainda lhe restavam a uma vida monástica, integralmente devotada à reflexão e a seus ensaios.

Como o ciclo de palestras sobre a preguiça mal começou, volto ao tema do ócio criativo (se não é criativo, é vagabundagem) por outro ângulo - pelo ângulo do fastio, do tédio, da acídia, corolários do far niente. Embora digam que ninguém, a rigor, tem mais tempo para se entediar, tantas e tamanhas são as distrações à nossa disposição (filmes, DVDs, TV, internet, iPhone, iPad, iPod, videojogos), a verdade é que a velha noia não foi enterrada junto com Antonioni. Desde sempre ela nos acompanha, às vezes com outro nome (melancolia), preludiando um mergulho na depressão ou, se tratada com uma excessiva exposição a gadgets eletrônicos, abrindo caminho para um entorpecimento mental de difícil reversão.

A despeito de seu histórico descrédito como uma espécie de sífilis do espírito, doença de ricos vadios e decadentes, afetação de poetas simbolistas do final do século 19, o tédio, como a crase de Ferreira Gullar, não foi feito para humilhar ninguém. Tem teóricos e defensores ilustres, como Nietzsche e os demais inventariados pelo norueguês Lars Svendsen em A Filosofia do Tédio, traduzido cinco anos atrás pela Zahar. Em sua recém-publicada história do tédio (Boredom: A Lively History), o australiano Peter Toohey o redime como um alerta tão salutar quanto a febre, como um sintoma de males mais graves em gestação. Ylia Oblomov não deu ao seu cafard a devida atenção e acabou morrendo de enfarte.

Como a preguiça, o tédio pode e deve ser trabalhado de forma produtiva, como algo fundamental para o exercício do pensamento e da criatividade. Dino, o moraviano pintor de La Noia, não conseguiu superar a lânguida esterilidade que a taedium vitae lhe impôs, mas outros lograram subjugá-la, até com humor, como o piloto Dunbar, do romance Ardil-22, de Joseph Heller, que descobriu no tédio, esse distensor da passagem do tempo, um aliado da longevidade. Em The Pale King, David Foster Wallace mostrou como o tédio pode aliviar e iluminar os mais extremos estados emocionais, lição que, infelizmente, não soube absorver em proveito próprio. Seu tédio virou depressão braba. Wallace enforcou-se em 2008.

Uma pesquisa de dois anos atrás revelou que os britânicos sofrem de tédio durante, aproximadamente, seis horas por dia. Parece muito, e é, mas ainda há três povos europeus à frente deles nesse ranking, todos a leste do Mar do Norte, na direção da Rússia, onde o enfado e suas piores consequências já provocaram mais baixas que as tropas de Napoleão e da Wehrmacht. O Oblomov acima mencionado era russo. Desde sua aparição, no epônimo romance de Ivan Gontcharov, publicado em 1858, simboliza como nenhum outro personagem literário a apatia, a frouxidão física e mental.

Aristocrata de São Petersburgo, incapaz de fazer qualquer coisa de útil na vida, Oblomov passa na cama as primeiras 150 páginas do romance e pouco se movimenta fora dela nas quatrocentas páginas seguintes. Sua inapetência para tomar decisões valeu-lhe o epíteto de "Hamlet russo", a meu ver, discutível, pois ele não carrega sobre os ombros os mesmos infortúnios do príncipe dinamarquês. É apenas um entediado de sangue azul, sem as aspirações contestatárias dos simbolistas, que se refugiaram no mundo da imaginação por se sentirem deslocados na sociedade utilitarista produzida pela revolução industrial e a ascensão da classe média. Inspirou uma expressão, oblomovismo, a que até Lenin aludiu num discurso contra o parasitismo da nobreza russa.

Vinte seis anos depois do patético fim de Oblomov, outro nobre enfarado e neurótico, o francês Des Esseintes, largou a efervescente Paris fin de siècle para enclausurar-se numa mansão em Fontenay-aux-Roses, que, decorada de forma excêntrica, com plantas de aparência metálica, torna-se a torre de marfim perfeita (ou o paraíso artificial perfeito) para o cultivo de refinadas experiências artísticas, como ler obras em latim clássico e poetas simbolistas, e bizarras aventuras imóveis, como atravessar o Canal da Mancha sem sair de casa, só a bordo da imaginação. Des Esseintes é o sibarita que Joris-Karl Huysmans acrescentou à dinastia dos ociosos criativos, no seminal romance Às Avessas.

Se Oblomov mal pertence a essa dinastia, Xavier de Maistre, o narrador de Viagem ao Redor do Meu Quarto, não só pertence como é bastante provável que a tenha iniciado, no final do século 18. Com a guilhotina jacobina ceifando cabeças ilustres em Paris, Xavier (irmão de Joseph) de Maistre trancou-se num quarto na italiana Turim para uma viagem de 42 dias dedicada à meditação "no doce calor do meu leito". Movido menos pela preguiça tout court do que pelo desafio de aliar o comodismo aos poderes da reflexão, de Maistre descobriu "um recurso seguro contra o tédio". Meditar é preciso, navegar não é preciso.

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