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No dia em que eu for muito culta

Não precisarei de Barsa, Google. Conhecerei as folhas do jatobá e os galhos da sequoia

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

26 Março 2017 | 02h00

Um dia eu pretendo ser muito culta. Mas um tipo de pessoa culta na qual tudo parece absolutamente natural. As afirmações mais interessantes e os comentários mais pertinentes fluirão com tamanha leveza que ninguém jamais aventará a hipótese de ser um comportamento guiado pela arrogância. Um dia serei uma pessoa inevitavelmente culta, daquelas que parecem que já nasceram sabendo tudo aquilo e que a cultura, nelas, é tão natural quanto unhas e dentes e cabelos.

Quando for muito culta, ouvirei os nomes das árvores e a imagem delas virá naturalmente até os meus pensamentos. Não precisarei da Barsa, nem do Google. Conhecerei o tronco da seringueira, as folhas do jatobá, os galhos da sequoia e as flores do mogno como conheço a palma da minha própria mão. Caminharei pela rua e direi tranquilamente que os manacás ficam mesmo lindos nessa época do ano.

Quando eu for muito culta, eu saberei diferenciar a quinta da nona sinfonia de Beethoven com obviedade. E a sinfonia número 40 de Mozart me lembrará concertos aos quais já fui e não o toque do velho despertador azul que meu pai tinha na mesa de cabeceira quando eu era criança. Também identificarei com naturalidade quais são os sambas de Nelson Sargento, Riachão e de Dona Ivone Lara. Cantarei as letras de Cartola e Noel com a mesma facilidade com a qual berro os versos de Adoniran em madrugadas embriagadas.

Quando eu for muito culta, terei lido todas as obras-primas dos grandes escritores russos. Tolstoi, Gogol, Chekhov, Dostoievski. E, sobretudo, saberei escrever todos esses nomes sem medo de errar. Outros nomes que saberei escrever sem dúvida alguma serão Schopenhauer, Heidegger, Nietzsche e Kierkegaard. Mencionarei filósofos como quem menciona personagens de novela: próximos, íntimos e passíveis de um juízo de valor exclusivamente meu. Hannah Arendt e Simone de Beauvoir serão como amigas com quem sempre conversei na mesa do bar.

Quando eu for muito culta, serei a rainha das proparoxítonas. Escreverei frases encantadoras como “aquele príncipe húngaro míope, andrógino e bígamo, desceu uma escada íngreme e úmida, ávido por emoções efêmeras, mas foi empurrado por um vândalo nômade e afogou-se num pântano cheio de angústia”. Conhecerei tão, mas tão bem as proparoxítonas da língua portuguesa, que a Construção do Chico parecerá apenas uma pequena ampola dessas palavras mágicas.

Quando eu for muito culta, encontrarei utilidade para tudo o que me ensinaram (ou pelo menos tentaram me ensinar) na escola. Identificarei as orações subordinadas substantivas completivas. Diferenciarei plantas briófitas, pteridófitas, angiospermas e gimnospermas. Aplicarei a distributiva a torto e a direito, depois de resolver boa parte dos problemas da minha vida com a fórmula de Bhaskara. Olharei os rótulos dos meus cosméticos identificando propanona e formaldeído. Ao fazer curvas inexatas com meu carro entenderei se o fato foi obra da força centrípeta ou da força centrífuga. Reconhecerei se o solo no qual piso é arenoso, argiloso, humoso ou calcário. Honrarei cada centavo que meus pais gastaram com a minha educação.

Quando eu for muito culta, todos saberão que sou culta, menos eu. Eu julgarei que todas aquelas são informações absolutamente naturais, cultura atávica talvez. Não julgarei os que não sabem, mas eu sempre saberei. Farei jus ao meu espaço nas folhas do jornal e ao meu título de doutora. Não deverei nada a ninguém. Não haverá brecha para formularem questões sobre merecimento ou privilégios. Será claro e evidente que esta mulher, tão assustadoramente culta, apesar de tudo, não poderia não estar onde está. 

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