No coração das novas tecnologias

Coppola comenta a chegada ao Blu-ray de Apocalipse Now

Geoff Boucher, The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Como se sente Francis Ford Coppola de volta à selva? "De certo modo", disse o cineasta de 71 anos com uma risada, "parece que nunca saí de lá".

Está chegando às lojas dos Estados Unidos uma grande edição de Apocalipse Now em três discos com tratamento Blu-ray, que resultou em mais de nove horas com o material extra. E a intensa participação de Coppola no projeto foi mais do que uma simples comemoração cinematográfica, mas, em muitos sentidos, uma missão de reparação de um legado.

Para Apocalipse Now: Edição Completa, Coppola não só recuperou fotografias e documentos da produção do filme de 1979 que causou uma verdadeira febre, como também entrevistou Martin Sheen e o roteirista John Milius a respeito de suas respectivas contribuições no épico da Guerra no Vietnã. O grande objetivo de Coppola - principalmente no caso de Milius - foi fazê-lo compartilhar da fama e das atenções do público, que em geral vão somente para o realizador.

"Queria que as pessoas conhecessem mais John Milius e sua participação neste trabalho", disse Coppola por telefone na semana passada. "Os grandes momentos do diálogo em Apocalipse Now, aquelas frases de que as pessoas ainda se lembram, foram todas criação de John Milius muito antes que eu pegasse no roteiro... Eu queria proporcionar-lhe o reconhecimento que lhe é devido." Ele supervisionou pessoalmente o processo de edição, e orgulhosamente prognosticou uma longa vida para esta versão mais trabalhada da obra sombria que se tornou um clássico. "É este o filme que as pessoas vão querer ver sempre que forem testar seu novo Blu-ray e home theater; é a versão tecnicamente perfeita."

A obra se tornou famosa antes mesmo do lançamento, em razão das várias calamidades ocorridas durante a filmagem, pelos excessos de todo tipo decorrentes de uma montanha de material - "um milhão de pés de película" - e pelas previsões de total fracasso criativo, do filme estrelado por Sheen, Marlon Brando, Laurence Fishburne e Robert Duvall.

Coppola (previsto para chegar esta semana ao Brasil, onde fará palestra para os alunos da Faap, em São Paulo) investiu em grande parte recursos próprios na realização, e o nível de sua ansiedade se tornou evidente em Coração das Trevas: o Apocalipse de um Realizador, o documentário montado com material de bastidores, filmado por sua esposa, Eleanor Coppola. "O que vocês veem é um diretor que acredita que perderá tudo", disse Coppola. "Procurei o apoio da minha mulher, e a reação dela foi: "Vamos pegar na câmera" ".

Vida própria. O documentário, que no novo pacote tem comentários em áudio do casal Coppola, chegou aos cinemas em 1991. Ele adquiriu vida própria, e Coppola admite que há cenas que ainda hoje lamenta ou acha que deve explicar, como o momento em que responde aos boatos de que o ataque cardíaco de Martin Sheen durante a filmagem foi fatal.

"No filme, eu falo: "Martin Sheen não está morto, a não ser que eu diga que está", e isso pega mal, principalmente se o público não conhece o contexto daquele momento", disse o diretor. "E talvez ainda agora não caia muito bem..." Coppola contou que queria fazer O Mais Longo dos Dias ou Os Canhões de Navarone, mas acabou fazendo "um filme estranho, surreal, que tinha muito do nosso envolvimento na Guerra do Vietnã - nele acabou havendo uma energia excessiva, situações prolongadas, uma espécie de loucura com equipamentos, tecnologia e confusão em plena era psicodélica".

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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