No coração da tormenta chamada Patti Smith

No Festival de Jazz de New Orleans, cantora faz do palco a sua vida

JOTABÊ MEDEIROS / NEW ORLEANS, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2013 | 02h11

Se ainda existe um lugar no mundo no qual a palavra rebelião faz sentido, esse lugar é o coração de Patti Smith. Em New Orleans para um show no mais tradicional festival de jazz da América, ela desembarcou na quinta-feira logo cedo para uma tarde de autógrafos de suas memorias, Só Garotos, numa livraria da cidade. Centenas foram, raros conseguiram. Quando ela subiu ao palco com sua banda, às 17 horas da quinta, chovia e metade da plateia estava enfiada na lama, com capas de plástico, numa vigília paciente. Pela metade do seu show, o sol voltaria a brilhar no alto de Fairgrounds, a hípica onde os shows se realizam, e logo ficaria claro que o que ela faz não é um show, mas uma espécie de sessão de descarrego - um exorcismo para livrar o espectador de seus males, seus preconceitos, suas certezas capengas, seus pequenos egoísmos.

Patti Smith recusa-se a ser aquele tipo de artista que nivela por baixo. Ela obriga o espectador a renovar suas ambições artísticas e o submete a um ritual de purificação. Ela abriu com Redondo Beach, do seminal disco Horses, e fechou com Gloria, sua cover especialíssima da banda Them. Ao seu lado esquerdo, como de hábito, com a vasta cabeleira grisalha, o guitarrista Lenny Kaye (estão juntos desde que ela declamava versos nos anos 1970, uma espécie de Nelson Jacobina de Patti). No meio do percurso entre o início e o final do show, ela dançou, sorriu, contou histórias curtas e enevoadas.

Discos voadores. "Vocês todos escutaram a respeito do CBGB em 1977", ela disse. O CBGB foi o lendário clube noturno de Nova York que lançou bandas como Ramones, Television, Blonde, e Patti Smith. "Bem, Tom Verlaine (líder da banda Television) e eu já estávamos por lá em 1974 e costumávamos subir ali no balcão e observar os discos voadores voando dentro do nosso pequeno clube", contou a cantora, para logo em seguida iniciar um contato extraordinário de terceiro grau com Ghost Dance.

Patti Smith canta com fúria, esgrime o ar, ergue os punhos, cerra os punhos, berra. Quando termina, olha para a plateia com um sorriso beatífico, como se estivesse aliviada de escapar da própria desintegração. Seu discurso politico é simples e eficaz. "O que as corporações mais temem é quando estamos juntos. Se soubermos usar isso, seremos invencíveis", ela diz. De seu arcabouço musical, que nasceu de uma necessidade de ampliar o alcance de sua poesia, surgiu uma música que aos poucos foi se revelando premonitória. Distant Fingers, por exemplo, é uma digressão especial com guitarras que resultou em tudo que conhecemos como indie hoje em dia.

A cantora estava em New Orleans, cidade devastada por um furacão, e nasceu em New Jersey, outra região devastada, dessa feita em 2012, pelo Furacão Sandy. Sabia que havia algumas palavras a serem ditas. Ela dedicou Ghost Dance aos que foram engolidos pelas enchentes, "todos aqueles que perderam suas vidas ou ficaram desabrigados pelas enchentes do Katrina. Tudo que aconteceu em New Jersey nos levou a pensar em vocês", disse. "Vocês nunca serão esquecidos. E o sol vai brilhar mais uma vez."

Generosa, Patti explora o melhor de sua banda, deixando que Lenny Kaye assuma o palco na interpretação de Night Time is the Right Time, dos Strangeloves, em um medley de rock de garagem. Até então um show de exclusivo orgulho feminino, de afirmação contínua, vira uma festa de "só garotos", com os dois guitarristas e o baixista Tony Shanahan (que também toca teclados e canta) assumindo a ilusão de potência angular do rock and roll de hits como Pushin too Hard, de Sky Saxon, e Born to Lose, de Johnny Thunder.

O público, que ainda se abrigava em sombrinhas e capas de chuva, não resistiu ao tour de force que surgiu com People Have the Power. Patti acelerou tanto o show que, avisa ao publico, vai ter de acrescentar uma outra canção para não sair antes do tempo. O show ganha mais 15 minutos e o baterista tira os fones de ouvido porque está atônito, não sabe o que ela anunciou que vai tocar em seguida. Tony Shanahan inicia ao teclado os acordes de It's a Dream, de Neil Young. Um final apoteótico. Todo mundo já sabia ali que aquela mulher não está no palco por uns trocados. É sua própria vida que ela desliza por cima da água represada na lama de New Orleans. Uma musica xamânica, curativa, provocativa.

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