No concerto final, erros e acertos

Os decanos da música contemporânea chamam-se Elliott Carter, com 102 anos, e Henri Dutilleux, de 94. O primeiro permanece radical; e o segundo, embora jamais tenha dinamitado o passado, observa até hoje um rigor raro em sua obra, que parte da tonalidade expandida para criar um mundo sonoro inteiramente inventado por ele, no qual harmonias luxuriantes e libertárias condensam-se em brilhantes gestos rítmicos e melódicos.

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2010 | 00h00

Por isso, foi acertada a escolha de Timbres, Espace, Mouvement, de Dutilleux, como uma das peças do concerto de encerramento do 41º. Festival de Inverno de Campos do Jordão, domingo, na Sala São Paulo. O erro foi delegar a regência a Yan Pascal Tortelier, titular da Osesp: instaurou-se um clima de insegurança danada entre os atentos bolsistas da Orquestra do Festival, procurando "pescar" as indicações do maestro. A peça, de 1978, inspira-se "metafisicamente", diz Duttilleux, ao quadro A Noite Estrelada, de Van Gogh. Remete à alquimia do jogo de timbres, contrapostos a uma textura sonora escura. O que se viu foi uma leitura nervosa das notas - e pouco, ou quase nada, da sutileza que faz de Dutilleux um dos grandes criadores musicais vivos. Perdeu-se a chance de mostrar a públicos mais amplos uma música acessível, mas não hesitante. E hesitação foi o que mais se viu e ouviu.

Porém, os bolsistas são de excelente nível. E provaram isso nas peças seguintes. Os chefes de naipes foram ótimos nas intervenções como solistas nas Quatro Estações Portenhas de Astor Piazzolla. O público vibrou. Mas, ranzinzamente, e aproveitando que não houve peça brasileira no concerto final, por que não trocar o argentino pelo brasileiríssimo Egberto Gismonti e sua recente e formidável suíte para orquestra de cordas Sertões Veredas? Teria sido uma revelação para os bolsistas e o público.

O erro de colocar Tortelier para reger Dutilleux na primeira parte transformou-se em pleno acerto na parte final, quando ele regeu O Pássaro de Fogo, de Stravinski. Aqui, o maestro francês sentiu-se em casa, seu gestual chegou mais claro e inteligível aos estudantes.

Duas frases-balanço deste festival: 1) do ponto de vista pedagógico, o êxito é incontestável, estendendo-se a boa parte dos concertos internacionais, com a bem-vinda e necessária ênfase inédita na música contemporânea, mostrando à moçada que eles estão sim no século 21, e que sua arte não é só museológica, voltada para o passado; 2) correndo por fora do eixo do festival, afloraram sintomas na serra de que nas praças Ramos de Azevedo e Júlio Prestes não se vive hoje no melhor dos mundos.

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