ANGELA WEISS/AFP
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No comando da Valentino, estilista une referências históricas com glamour subversivo

Depois de conquistar a crítica no último show apresentado em outubro, em Paris, ele agora imprime sua personalidade mais casual

Entrevista com

PIERPAOLO PICCIOLI

Maria Rita Alonso / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2017 | 05h05

Na moda, há uma certeza: roupas servem (também) para passar mensagens, para dizer quem você é, que trabalho exerce, como enxerga o mundo, o status que exibe e a riqueza que possui (ou que não possui). Quando se trata de uma roupa de luxo, que alcança o valor de quatro, cinco, muitas vezes até seis dígitos, tudo se torna mais elaborado.

Na quarta-feira, 11, a Valentino apresentou o desfile da coleção pre fall cheio de significados embutidos nos vestidos, nas peles, nos acessórios e na locação escolhida, o hotel Beekman, em Nova York. Foi ali, no elegante lobby, que o estilista Pierpaolo Piccioli falou com exclusividade ao Estado.

Depois de 17 anos na marca, sete deles dividindo o comando criativo com Maria Grazia Chiuri, ele finalmente vive o seu momento na moda. Agora é tudo só do jeito dele (inclusive as redes sociais e as campanhas da marca, que estão sob sua supervisão).

Depois de conquistar a crítica no último show apresentado em outubro, em Paris, ele agora imprime sua personalidade mais casual e subversiva.

 Nascido e criado em Roma, o estilista que é falante, sonhador e vive em busca de referências artísticas, conta a seguir como faz para criar peças que viram hits no mundo todo, e como a poesia influencia sua vida e suas coleções. 

Por que você decidiu armar um desfile em Nova York?

A América é a terra das oportunidades, onde os sonhos se realizam. Quando chego aqui, sinto a vibração das pessoas. Esse é um país multirracial, da diversidade de culturas surge um ambiente muito propício às artes. Sinto a resiliência do otimismo. A América é um símbolo para os sonhadores.

Este foi um desfile privê, com apenas 180 convidados (normalmente são 700). Por quê?

O prêt-à-porter está estabelecido e é sempre em Paris. Para a pré-coleção, é importante fazer uma apresentação elegante, falando mais baixo e produzindo um desfile mais íntimo. Estamos experimentando novos formatos.

Quais foram suas inspirações para a coleção?

Estava pensando em uma mulher como Billie Holiday, como Nina Simone. Para mim, a sensibilidade e o romantismo tornam as mulheres mais fortes. Por isso, criei uma coleção muito romântica, iluminada e otimista. Procuro humanidade até nas roupas. Gosto mais de pessoas do que de roupas.

Quando cria uma peça, você sabe que ela pode se tornar um hit? Quais são suas apostas? 

Adoro criar peças que carreguem sonhos. As botas longas sobre os joelhos, por exemplo são sexy de um jeito contemporâneo. Hoje, o ‘uncool’ é o novo cool. Acho que você não precisa de muito para ser cool. O que me encanta é a subversão e a sensualidade que as roupas podem transmitir. É isso que define o sucesso de uma peça. 

Você tem feito uma moda festa utilizando cores fortes e inesperadas. Isso traz modernidade para a roupa de noite?

Amo cores, elas são capazes de transmitir sensações, descrever sentimentos e passar energia. Por isso, são parte importante de qualquer roupa, inclusive a de noite.

Quais são suas táticas para manter a marca desejável, especialmente para os millenials? 

A nova geração não está tão ligada ao status quo, mas em como a moda pode ajudá-la a se definir. Os jovens usam peças e objetos para expressar a sua própria personalidade e não o contrário. Encaram o luxo de um jeito diferente. 

Você também assumiu o comando do conteúdo digital da marca. Por quê?

A verdadeira moda entrega valores junto com a roupa. É importante compartilhar e comunicar esses valores de uma forma autêntica, estratégica e direta. E que respeite a estética da marca. Eu não estava nas redes sociais e não entendia muito disso. Mas a gente pode aprender qualquer coisa. Agora, sou obcecado pelo Instagram. Adoro revelar o que há de humano por traz da moda.

Você utilizou mulheres de diferentes idades e etnias em sua última campanha e nas redes. O mundo da moda está mais engajado em causas femininas?

Quisemos apresentar mulheres que são ícones de beleza em diferentes idades. A beleza para mim está principalmente na personalidade de cada uma delas e não na perfeição estética. Fizemos as fotos nos bastidores porque ali a emoção do momento é diferente. No estúdio, o clima é mais frio.

O que é luxo para você hoje?

Peças de luxo são caras porque tomam tempo e exigem esforços de diferentes tipos de trabalhadores e de especialistas para serem criadas. Para mim, luxo tem a ver com cultura. E pode estar até em uma camiseta, quando você sente que aquela é a melhor versão que pode existir de uma camiseta.

Qual é seu maior prazer como estilista atualmente? 

Cresci em Roma, um lugar distante do mundo da moda. Já alcancei o que nunca havia sonhado para minha vida. Então, fico muito feliz de poder estar aqui. Eu não sinto a pressão. Estou entusiasmado com meu trabalho e, realmente, curtindo meu dia a dia.

A Valentino abrirá sua quinta loja no Brasil em fevereiro. Quando vem nos visitar?

Quero muito ir ao Brasil, mas ainda não será dessa vez. Nunca estive no Brasil, mas tenho certeza de que vou adorar. Gosto do prazer de viver do brasileiro e da energia boa que vocês passam. 

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