No caminho inverso, a ópera vai ao pop

Desde que o mitológico tenor italiano Enrico Caruso gravou precariamente cançonetas napolitanas nas primeiras décadas do século 20, divas e "divos" líricos são pressionados pelas gravadoras para avançar pelo repertório popular. Nada, em geral, que tenha lustrado um pouquinho que seja sua imagem.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

Mas o que era apenas operação caça-níqueis encorpou nos últimos tempos. Os astros agora gravam o melhor da música popular. É o caso de Jessye Norman, em turnê pelo Brasil. No repertório, pepitas inesperadas de Duke Ellington e Vernon Duke e "negro spirituals", acompanhada pelo pianista Mark Markham. "Só há dois tipos de música, a boa e as outras", diz ela na contracapa do álbum duplo Roots (Sony) em que refaz a trajetória musical dos negros nos EUA, da escravidão à atualidade.

Seus fãs líricos ficarão assustados. Da cena lírica que lhe deu glória, Norman canta apenas a Habanera da Carmen de Bizet, ópera na qual brilhou, em cena e em gravações. Mas o recital (ou show?) é uma amostragem das 23 faixas dos CDs captadas ao vivo. As quatro primeiras são de arrepiar: notáveis interpretações de "negro spirituals". A primeira, His Eye Is on The Sparrow, é assinatura musical de Ethel Waters, a capela, sem acompanhamento; a quarta provoca lágrimas, é Sometimes I Feel Like a Motherless Child, só com contrabaixo. Os tributos a Ellington e a quatro divas pop (Nina Simone, Lena Horne, Ella Fitzgerald e Odetta) e à "french connection" (antológicas leituras de J"Ai Deux Amours, assinatura musical de Josephine Baker, e April in Paris, de Vernon Duke) completam uma série de excepcionais performances, em que raramente a voz soa empostada demais (apenas o scat beira o tosco).

Descuidos em que não incorre outra diva lírica, a meticulosa Renée Fleming, em Dark Hope, CD deslumbrante, atual e pop: Dark Hope. Ela canta com a chamada voz branca (voz com impostação), e explora apenas o registro médio (ou seja, duas oitavas abaixo do que canta em ópera). E o repertório traz assinaturas dos ídolos de seus filhos adolescentes: de Peter Gabriel (In Your Eyes) a Leonard Cohen (Hallelujah), passando por Band of Horses (No One"s Gonna Love You), Muse (Endlessly) e Duffy (Stepping Stone). Arranjos precisos e uma inédita Renée Fleming - tudo obra e graça de David Kahne, experimentado produtor pop que já pôs de pé CDs de Paul McCartney, Bangles e Sublime. A crítica erudita detestou, por puro preconceito.

Mas, pra não ficarmos só nas divas, um terceiro recentíssimo lançamento internacional prova que cantores eruditos suingam como qualquer badalado intérprete de jazz e rhythm"n"blues. O barítono alemão Thomas Quasthoff, de 50 anos, só mostrou seu corpo cruelmente marcado pela talidomida nos últimos sete anos (estreou, com seu 1,29 m de altura em 2003 em Fidelio de Beethoven no seletíssimo Festival de Salzburgo convidado pelo maestro Simon Rattle). Venceu só por sua magnífica voz e possui um vastíssimo repertório, das cantatas de Bach aos lieder e à ópera. Pois desde estudante em Munique ele esmerilhava nos barzinhos cantando jazz. Agora mostra imensa maturidade no jazz e r&b. Tell It Like It Is (Deutsche Grammophon) é sua segunda gravação popular (a primeira, The Jazz Album, é de 2007). Surpreende em Have a Talk With God, de Stevie Wonder, Short People, de Randy Newman.

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