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No cabaré com uma diva

Acompanhada por bandônion e piano, ela interpreta canções de Weill e Brecht

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2011 | 00h00

Ute Lemper fala de sua identidade com os personagens de Weill e Brecht, do envolvimento com a obra de Piazzolla e Bukowski, e, claro, do show que traz a São Paulo, Kabarett.

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Por que você se identifica com tanta intensidade com as canções de Kurt Weill?

Descobri minha identidade artística e musical através do repertório de Weill e Brecht. Quando ouvi suas canções pela primeira vez, no fim dos anos 1970, apaixonei-me pelas temas, tão originais, e pelos personagens que despontam em Ópera dos Três Vinténs, Mahagony Songspiel, Happy End e outras peças. São histórias de párias, lutadores, rebeldes, pessoas que sonharam iniciar uma revolução a fim de mudar a sociedade. Eles falavam de corrupção e hipocrisia, manipulação política e impossibilidade de justiça, desejo e amor em uma sociedade imoral. Personagens como o pirata Jenny eram desromantizados, mas perverso, esperto e sem medo para enfrentar barricadas. Para mim, foi muito importante representar esse material e mostrá-lo em várias partes do mundo, reabrindo o diálogo entre o passado alemão e as complicadas questões que nós, geração do pós-guerra, enfrentamos. Kurt Weill e Brecht representam os artistas denunciados e até mortos pelos nazistas por conta de seu judaísmo e orientação política. Tornou-se minha missão reviver a história deles a fim de mantê-los vivos e, também, as atrocidades e o pesar a respeito do Holocausto.

Você pensou em representar algum papel daqueles criados por Weill, como em Ópera dos Três Vinténs?

Tive diversas oportunidades para interpretar esses papéis e confesso que fiquei tentada. Mas prefiro fazer meus concertos nos quais posso também cantar as músicas dos papéis masculinos. Na Ópera dos Três Vinténs, Jenny tem apenas duas ou três canções - insuficiente para meu desafio musical de revelar o espectro dessa obra. Nos meus shows, posso explorar todas as culturas, todos os personagens e todas as aventuras musicais, inclusive com improvisações.

Você é uma performer eclética: já interpretou canções alemãs de protesto; de Kander, Ebb, Sondheim; de compositores contemporâneos como Nick Cave, Tom Waits e Elvis Costello. Qual é o seu segredo?

Não se esqueça do repertório francês de grandes poetas e letristas! O segredo está sempre na história que se narra. Elementos das canções realistas; preocupação com grandes emoções; conflitos da vida como solidão e rebelião contra opressão; perda e desespero; a procura do amor e da comunidade - esse tipo de canção me toca profundamente. Como uma cidadã do mundo que viveu em vários países, acredito que, pela música, é possível expressar, da melhor forma possível, o caráter sensual e individual de uma cultura. Tive diferentes capítulos de aventuras musicais ao longo de 30 anos de carreira e, num primeiro momento, parecia que tudo era apenas para explorar o universo do meu tempo. Mas agora sei que tudo faz parte da minha vida.

Qual seu trabalho atual?

Vou gravar com os veteranos do sexteto de Piazzolla todo um ciclo de canções dele. Estreamos essa série de concertos em Hong Kong, no mês passado, e agora vamos excursionar e gravar no segundo semestre e também no próximo ano. Também tenho um projeto criado por mim chamado Bukowski, uma colagem de poemas e canções que contam sua trajetória. Tenho muito carinho por esse projeto, especialmente pelo desafio de criar a música e descobrir seu esboço dramático. A poesia de Bukowski sempre me intrigou e finalmente encontrei uma forma de homenageá-lo.

Você iniciou sua carreira como dançarina, ganhando até uma coreografia criada por Maurice Béjart. Também participou de musicais como Chicago. Agora, decidiu não dançar mais?

Bem, Chicago me causou uma terrível hérnia de disco que ainda me provoca dores depois de dois anos com oito apresentações por semana. Mesmo assim, adorei a experiência, especialmente por me aproximar um pouco do estilo Bob Fosse. Já trabalhar com Béjart foi uma experiência única - ele era tanto um intelectual do balé como tinha grandes conceitos de coreografia. Ainda danço um pouco, mas tento escapar da imposição da coreografia. Gosto de estar livre no palco, sem me preocupar com o próximo passo.

E no cinema?

Estou concentrada na minha carreira de cantora. Hoje, é a arte na qual eu me sinto mais confortável.

E como será esse show que você apresenta em Sorocaba e São Paulo?

Estive no Rio em setembro para apresentar O Último Tango em Berlim. É o mesmo show que mostrarei em São Paulo. É uma viagem que começa em Berlim, na época Weimar, passa por Paris, Buenos Aires e Nova York até voltar à Alemanha. É uma história de imigração e exílio, uma jornada por várias culturas. Imaginei um destino para o pirata Jenny que primeiro vive os mais excitantes anos em Berlim, durante os dourados anos 1920, até ser obrigado a fugir dos nazistas e buscar refúgio em algum lugar mais seguro. Eu me sinto muito conectada a todos esses repertórios. As canções tratam de sobrevivência, medo, e da busca pelo amor. Vou cantar canções de Weill e Hollaender, Brel e Piaf, Piazzolla, Kander e Ebb, além de músicas minhas. Minha jornada pessoal não corresponde à passagem do tempo, mas me sinto em casa com esse repertório da Alemanha, França, Argentina e Estados Unidos. É como se eu estivesse sempre viajando, fincando minhas raízes na cultura desses países.

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