Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

No Brasil, Domenico Dolci lança o livro ‘Queens’, que evoca uma opulência clássica e dramática

Pesando cinco quilos, o livro reúne fotos que revelam toda a extravagância da marca Dolce & Gabbana

Entrevista com

Domenico Dolce

Maria Rita Alonso , Especial para O Estado de S. Paulo

02 de junho de 2019 | 03h00

É curioso ouvir o Domenico Dolce falando sobre a relação de confiança de uma mulher com seu costureiro. Dono de um império da moda italiana construído ao lado de Stefano Gabbana, com quem foi casado e é sócio há mais de 30 anos, Dolce preza pelo contato pessoal – e esse é um grande diferencial em um mundo de estilistas de grife distantes e blasés. 

Na terça, 28, ele esteve em São Paulo para lançar o livro Queens, com fotos de 50 mulheres do mundo inteiro, a maioria clientes da marca e donas de grandes fortunas. Entre as nove brasileiras retratadas, estão Andrea Dellal e Anna Claudia Rocha.

O livro pesa 5 quilos, tem impressão majestosa da Assouline e fotos que revelam toda a extravagância da marca Dolce & Gabbana, assinadas pelo próprio Dolce. Além de exímio modelista, famoso pelo rigor da alfaiataria e pela sensualidade dos vestidos que evocam as mammas da Sicília, ele também atua como fotógrafo de moda bissexto.

Em entrevista ao Estado, Dolce falou sobre como sua moda espelha as belezas clássicas da Itália e analisou o luxo na era das redes. “O Instagram está matando o sonho da fotografia.”

Como foi a concepção do livro? Por que Queens?

Esse livro é sobre a beleza especial que existe em mulheres de diferentes países e diferentes culturas. Quando começamos a desfilar a coleção de Alta Moda, a ideia era unir clientes de todas as partes em torno de um desfile de alta costura armado na Itália. Nossa relação com essas clientes internacionais foi se estreitando e decidimos registrar essa história.

Vocês defendem a estética clássica na moda.

Nós temos sorte de viver na Itália, somos cheios de beleza ao nosso redor: o Coliseu, Piazza San Pietro, Michelangelo... Todas essas igrejas cheias de Caravaggios! Eu aprecio muito o que é clássico e sou fiel à nossa história. Imagina se dizem: “Agora vamos mudar todas as pinturas de Rafaello”. Entende? “Agora vamos mudar o Michelangelo, ele não pode mais fazer esculturas nudistas”.

Qual foi a contribuição de Stefano Gabbana no livro?

Gabbana ajudou com styling, o que foi ótimo. Mas, principalmente, ele me incentivou muito, disse: Vai, não tenha medo!

Por que as supermodelos magras e perfeitas não fazem mais tanto sucesso hoje? 

Isso é marketing. A audiência não se importa mais com a modelo, mas, sim, com a história. Não fazemos mais questão de saber quem é a modelo se ela estiver com o mais incrível fotógrafo, a melhor maquiagem e o melhor cabelo.

Nas mídias sociais, as pessoas buscam identificação. A moda está se destituindo de padrões de beleza como a magreza?

Twiggy era magra, você é magra. Magreza não é um problema. Quero ser magro também! A questão é que você tem que ter respeito por toda mulher. A moda não pode instigar a anorexia, esse é um distúrbio horrível que afeta principalmente as mais novas. E culpam a publicidade por isso. Nos anos 50, isso já acontecia, as mulheres italianas que sonhavam em ser modelo... A má informação que é o problema.

Como você lida com o imediatismo das redes sociais?

O ritmo acelerado que as novas mídias impõem mudou nosso estilo de vida e criou uma ansiedade enorme. Só que o luxo está na espera. Se você quer um bom vinho, precisa esperar. Se quer um bolo gostoso, precisa esperar, assim como se você quer um vestido lindo. O que é rápido, é barato. Para alcançar a qualidade, você precisa de tempo.

Anos atrás, vocês investiram na Alta Moda, abandonando a D&G, segunda marca mais popular. A estratégia deu certo?

Faturávamos milhões com a D&G, mas chega uma hora em que você precisa decidir se quer ganhar dinheiro ou realizar seu sonho. Meu ícone entre as marcas de luxo é a Chanel. Não estou me referindo às roupas, mas ao que diz o espírito da marca, e foi referência para nós: se você quer fazer moda de luxo, tem que ser fiel ao DNA e não pode baratear a marca. 

Como é trabalhar alta costura, um conceito tipicamente francês, na Itália?

Nossa moda é toda sobre a Itália. Para nós, a moda é também uma expressão da cultura italiana. Por isso, a experiência de Alta Moda não é apenas marketing ou estratégia, nós apresentamos o país aos clientes em desfile pela Itália de uma forma muito pessoal. Cuidamos de tudo, das roupas, das acomodações, das flores. Somos os fundadores, os donos, os designers... Nossa relação com a moda não é a mesma que a de um estilista contratado. É a diferença entre a babá e a mãe. Elas sentem o mesmo amor?

A marca tem planos de realizar um desfile no Brasil?

Temos dois países em mente, Rússia e Brasil. Ambos bem complicados em termos de logística para um desfile. Mas Brasil tem muito a ver com a Itália. Temos a mesma alegria, amamos família, diversão, festas, dramas (risos). Não somos cool, somos passionais. Nós amamos um drama!

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