Mark Veltman/ The New York Times
Mark Veltman/ The New York Times

No berço do jazz, um dos maiores festivais do mundo abriga gêneros

Com 450 artistas anunciados, evento em New Orleans tem um leque eclético de emergentes e consagrados

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2012 | 03h07

Mais de 450 atrações foram confirmadas para a edição 2012 do New Orleans Jazz & Heritage Festival, mais conhecido como JazzFest, um dos maiores eventos de música do mundo. O festival acontece na cidade de New Orleans, Estados Unidos, entre 27 a 29 de abril e 3 a 6 de maio, no hipódromo local, Fairgrounds. São 11 palcos e uma infinidade de gêneros, com ênfase histórica no jazz, no blues, no country e no zydeco e na cajun music, tradicionais do Sul americano.

O anúncio mostra uma acentuada guinada do JazzFest para o pop e o rock. A cantora canadense Feist; o grupo de hard rock emergente Grace Potter and The Eternals; o astro do R&B Ne-Yo; a cantora Sharon Jones e seus Dap-Kings; os grupos Foo Fighters (escalado para o Lollapalooza Brasil, em abril) e Tom Petty & The Heartbreakers; e os cantores Al Green e John Mayer estão entre as atrações deste ano.

Também é muito aguardado no festival o indie folk do Bon Iver, encabeçado pelo cantor e compositor Justin Vernon, de Wisconsin (indicado para quatro prêmios Grammy na última edição do prêmio, incluindo disco do ano e artista revelação. O nome do grupo vem da junção das palavras Bon e Hiver, em francês ("bom inverno").

Muitos nomes que são novidade no show biz estão no programa, como Florence + the Machine, Iron and Wine, Janelle Monae e My Morning Jacket. Outros são já consagrados, como Jill Scott e Foo Fighters. Parte dessa escalação "familiar", por assim dizer, com os nossos festivais latino-americanos do momento tem sua explicação na parceria entre New Orleans e a empresa AEG Live, conglomerado do entretenimento (que vai administrar a novíssima Arena do Palmeiras, em São Paulo).

 

 

Da velha guarda, os nomes mais proeminentes do programa são The Eagles e Tom Petty, que estão participando pela primeira vez do festival de New Orleans. Tom Petty, que já acompanhou Bob Dylan, está com 61 anos; Don Henley, principal cantor dos Eagles (um dos grupos que compôs alguns dos maiores sucessos do dial planetário, como Hotel California), está com 64 anos - e sua banda não planeja fazer uma turnê este ano, apenas o show do JazzFest.

Aquela que talvez seja a turnê mais ambicionada do ano também estará lá: a excursão do cinquentenário do grupo The Beach Boys, agora com seu líder e compositor original, Brian Wilson, no comando. Além de Brian, compõem os Beach Boys os músicos Mike Love, Al Jardine, Bruce Johnston e David Marks. "Essa festa é especial para mim porque eu senti falta dos rapazes e vai ser uma alegria pra mim fazer um disco novo e estar no palco com eles novamente", disse Brian Wilson. A banda lançará um disco inédito pela Capitol/EMI este ano.

 

Criada em Hawthorne, Califórnia, em 1961, The Beach Boys tinha originalmente os irmãos de Brian, Carl e Dennis; seu primo Mike Love e o colega de infância Al Jardine. Em 1962, entrou no grupo um vizinho dos Wilson, David Marks. Tornou-se um ícone da música americana e disputou espaço palmo a palmo com os Beatles no seu auge. Mortes no grupo e uso indiscriminado de drogas os separaram. Brian Wilson retomou a carreira e veio ao Brasil pela primeira vez em 2004, para o extinto TIM Festival.

O JazzFest é tão grande que não se pode afirmar precocemente que o jazz ficou em segundo plano. A lista de notáveis confirmada é imensa: Ellis Marsalis, Nicholas Payton, Irvin Mayfield, Dr. Michael White, Terence Blanchard, Dr. John, Terri Lyne Carrington, Donald Harrison, John Boutté, Delfeayo Marsalis, entre inúmeros outros. Neste setor, destaca-se o show do cinquentenário da Preservation Hall Jazz Band, coletivo que atravessou o século 20, em diferentes formações, tocando dixieland e jazz tradicional em torno do mítico clube Preservation Hall, no French Quarter, bairro histórico de New Orleans.

O JazzFest de New Orleans é um festival superfamília. É realizado durante a tarde no hipódromo de New Orleans (o último show termina às 19 h), e por ali os pais passeiam com seus bebês, os netos fazem piquenique com seus avós, tudo regado à melhor tradição musical americana (são dezenas de shows simultâneos). São habituais os folclóricos "funeral parades" (funerais ao som de metais de jazz) e festivais de comidas típicas da região (jambalaya, gumbo, po boys, alligators pies, beignets, entre outras delícias).

 

 

O New Orleans Jazz & Heritage Festival foi criado em 1970 pelo empresário George Wein, que já organizava desde 1954 o Newport Jazz Festival e também o famoso Newport Folk Festival - aquele mesmo no qual Bob Dylan tocou folk com guitarra elétrica, em 1965, escandalizando os puristas. Wein foi a New Orleans justificando que ali estava "a mais rica herança musical da América do Norte", e que investir em cultura era um ótimo negócio.

Wein mostrou que estava mais que certo. Estima-se que, atualmente, o festival, que envolve investimentos de cerca de US$ 10 milhões, tenha um impacto econômico de aproximadamente US$ 300 milhões na Louisiana. E New Orleans está na moda. Tornou-se nos anos 2000 algo parecido ao que São Francisco foi nos anos 60: um Eldorado cultural, uma zona franca de ebulição artística, utopia urbana de paz, amor e música. Refeita completamente da destruição do furacão Katrina, que a devastou em 2005, a cidade recebe hoje cerca de 7,5 milhões de turistas todo ano, que deixam US$ 4,2 bilhões (600 mil espectadores vão apenas pelo jazz).

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