No baú de Domingos

Ator vive a própria avó na peça Do Fundo do Lago Escuro

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2010 | 00h00

A primeira montagem de Do Fundo do Lago Escuro, texto autobiográfico pelo qual Domingos Oliveira ganharia um Molière, foi há 30 anos. Fernanda Montenegro e Fernando Torres faziam os papéis do casal de meia-idade Conceição e Henrique, ela filha e ele genro da matriarca de uma tradicional família carioca, Dona Mocinha, à época vivida pela atriz veterana Carmen Silva. Quando percebeu que Priscilla Rozenbaum, sua mulher e atriz predileta, já era madura suficiente para encarnar Conceição, sua mãe, e que ele próprio, aos 73 anos, poderia ser Dona Mocinha, sua avó, Domingos começou a tocar a remontagem. Paulo Betti interpreta seu pai. "A situação ficou irresistível pra mim", conta o autor, há quatro semanas em cartaz no Teatro das Artes, no Rio (a temporada vai até o dia 27).

O público se diverte ao vê-lo travestido. Mas logo passa. O que faz rir até o fim são as tiradas de Dona Mocinha, autoritária, intransigente, durona, mas também gregária e devotada à família. Ao fim, a plateia se emociona ao saber que o menino Rodrigo, vivido pelo ator mirim Victor Navega Motta, é o próprio Domingos, e que tudo que se passa ali, na casa da Rua da Matriz, em Botafogo, reproduzida com suas salas cheias de samambaias, é inspirado em sua vida.

A história se passa nos anos 50, ao som de Carlos Lacerda no rádio. Na vida real, Domingos já era rapaz feito. Na peça, Rodrigo é ainda uma criança, muito protegida pela família. O público gosta do tom confessional. "É algo muito pessoal, de verdade", justifica Domingos. "Inventei muita coisa, porque a memória é falha, mas me baseei em fotos, que examinei durante um mês. Ficava tentando lembrar quem era a pessoa desfocada ao fundo..."

Em atividade há cinco décadas, ele fez questão de dirigir o espetáculo, o que não aconteceu quando da montagem com Fernanda Montenegro (o diretor foi Paulo José). Houve ainda uma outra, nos anos 90, com o grupo Tapa. Ele acredita que não exista melhor diretor do que o próprio dramaturgo. "Prefiro quando eu participo. O autor sabe coisas que ninguém mais sabe, sempre deveria dirigir suas peças. Para ser melhor do que o autor, só sendo um grande diretor, como o Antunes (Filho). Esta é a 56.ª peça que dirijo, me sinto em casa." O camarim ajuda: bem grande, colada no espelho, vê-se uma foto de Dona Mocinha, a verdadeira. "Estou a cara da minha vó. Eu sou a minha avó", aponta.

Para chegar a Victor Navega Motta e a João Vithor Oliveira, que faz seu primo, fez testes com mais de 30 meninos. Ricardo Kosovski e José Roberto Oliveira, atores de sua trupe, também estão no elenco.

Melhor texto. Do Fundo do Lago Escuro é seu melhor trabalho, ele elegeu, levando em conta sua carreira no teatro, no cinema e na TV. "Suspeito que se trata de uma boa peça, que sobreviverá para além de mim. Nunca tive antes essa sensação", escreveu.

No momento, não é o único trabalho. Estamos falando do prolífico Domingos Oliveira, que também pode ser visto no Canal Brasil, desde março, toda quarta-feira à noite, em Coisas Pelas Quais Vale a Pena Viver.

Uma seleção de reportagens sobre teatro, futebol e amizade, entre outros temas, Coisas é seu quarto programa com Priscilla Rozenbaum na emissora, depois de Todas as Mulheres do Mundo, Todos os Homens do Mundo e Swing, todos estes de entrevistas feitas de modo muito pessoal - o que chama de "jornalismo autoral", título que deu a um espetáculo relâmpago apresentado no Teatro Tom Jobim em abril.

À espera de patrocínio está o roteiro de Inseparáveis, continuação da saga do casal Glorinha e Cabral, de Separações, no cinema. Priscilla continua fazendo Glorinha, mas Domingos já se acha velho demais para viver Cabral - deixou o papel para Pedro Cardoso.

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