No balanço do rec-beat

Rico e diversificado, na 17ª edição o evento confirma vocação para o sucesso

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, RECIFE, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2012 | 03h08

Quem trazer para a próxima edição? Era a pergunta que pairava nos bastidores do 17.º Rec-Beat, que teve uma das programações mais intensas de sua vitoriosa carreira. Quem já veio ver sabe que o festival idealizado e produzido por Antonio Gutierrez (Gutie) tem público específico dentro do carnaval, aberto a novidades e experimentações. Quanto a isso não houve surpresa. A credibilidade do festival, um dos melhores do País, com qualidade técnica e artística exemplares, mantém-se firme e crescente.

Os shows do projeto Agridoce, de Pitty (piano) e Martin (violão), e de Criolo já eram consagrados por antecipação. Foram os dois que tiveram o maior público, respectivamente nas noites de segunda e terça. As atrações que os antecederam (o duo Oy-Joy Frempong, da Suíça, e Dona Onete, de Belém), também se beneficiaram dessa demanda.

De Pitty e Martin quase não se ouvia as vozes, porque os fãs ensandecidos cantavam tudo, em volume bem mais alto do que eles. É o show de um disco intimista, adequado para teatro (como eles têm feito), mas a atuação do público fez tudo ficar maior. Até a canção mais melancólica de todo o festival, um cover de Please, Please, Please Let Me Get What I Want, dos Smiths, não pareceu tão deprê nessa situação.

Independentemente da escalação, os nomes menos conhecidos foram igualmente bem recebidos, como sempre ocorre no festival. Mais de uma vez a plateia gritou em coro o nome da veterana cantora do Pará, que, cheia de graça e ginga aos 72 anos, trouxe ritmos tradicionais de sua terra, como o carimbó. Cantou e dançou acompanhada de novos talentos, como Felipe Cordeiro, Lia Sophia e Pio Lobato, e ainda homenageou Criolo, interpretando Não Existe Amor em SP.

A noite de terça, que terminou com um showzaço de Criolo, com o Cais da Alfândega tomado de gente, foi forte, principalmente a partir de Cibelle, que trouxe alegria e colorido carnavalesco ao evento, cantando várias marchinhas, acompanhada da banda carioca Do Amor. Estilosa até com a perna enfaixada por conta de um dedo quebrado, ela veio vestida com um mix de partes de outras fantasias, pulou, dançou e ainda ficou ao lado de Pitty para ver Criolo na plateia.

A cubana Yusa arrebatou a multidão com sua fusão de música tradicional de seu país, jazz, funk e música brasileira. Alternando-se em instrumentos de corda, impressionou pela pegada forte quando toca contrabaixo.

Com sua superbanda, que tem o DJ Dan Dan, Marcelo Cabral, Daniel Ganjaman, Guilherme Held e Thiago França, o rapper paulistano fez um show retumbante, cantando as músicas de seu incensado álbum Nó na Orelha. Também teve o nome gritado em coro pelos fãs, que cantaram todas as músicas com ele. Trajando camisetas dos Devotos (antigo grupo de hip-hop local), da comunidade de Peixinhos e do Estado de Pernambuco, Criolo fez seu protesto discretamente usando pinheirinhos de papel no antebraço e no apoio do microfone, em referência ao violento episódio de reintegração de posse em São José dos Campos, ocorrido em janeiro.

Mesmo para quem já viu o show, aqui não deixou de ser contundente. Isso já aconteceu com outros grupos e artistas que passaram por aqui agora e nos anteriores. Caso da banda paulistana Bixiga 70, que fez o melhor show da segunda-feira e um dos mais pulsantes de todo o festival, com seu mix de afro-beat, funk e jazz, com homenagem a Fela Kuti incluída. O público insistiu pelo bis e ganhou. A potência de som do Rec-Beat, o ambiente onde o festival é realizado, na beira-rio, e essa integração com grandes plateias, tem poder transformador.

Outro grande show de encerramento foi o do colorido e alegre grupo colombiano Systema Solar, que tocou no domingo. A performance meio bizarra e o forte acento latino, em ritmos como a cumbia, lembraram um pouco o Kumbia Queers, da Argentina, atração de 2011. Mas musicalmente o Systema Solar é mais rico e diversificado. A cara do Rec-Beat.

Tanto eles como o trio espanhol El Guincho, a dupla Oy-Joy Frempong e o veterano americano Simeon Coxe (Silver Apples), que fez um show antológico sozinho com seu arsenal de invenção própria, deixaram pistas evidentes de que ainda há vida criativa na música eletrônica.

O festival também tem a tradição de homenagear veteranos, como foi o caso de Odair José em 2011. Este ano, além de Dona Onete, teve Toni Tornado, que foi uma decepção. Cantando pouco por conta da idade (82 anos), ele parecia mais interessado em promover o filho e apelou para hits de Tim Maia e James Brown. Em vão.

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