No abismo entre o real e a ficção

O inglês Chris Cleave, autor de Pequena Abelha - que será levado em breve ao cinema tendo Nicole Kidman no papel principal - fala da construção da trama e do exercício de se colocar no lugar do outro

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

Avida de uma jovem nigeriana, conhecida por Pequena Abelha, muda radicalmente quando ela conhece uma jornalista inglesa, Sara, cujo filho de 4 anos não tira a fantasia de Batman. O encontro é fatídico, pois uma delas precisa tomar uma decisão difícil. Passam-se dois anos e elas se reencontram. E tudo recomeça - com um final inesperado. Pequena Abelha, o bem-sucedido segundo livro do londrino Chris Cleave, colunista do jornal The Guardian, será adaptado para o cinema, com Nicole Kidman no papel de Sarah.

Suas duas personagens se intercalam no comando da narrativa, mas é sob a voz da Pequena Abelha que o autor exercita comentários sobre a hierarquia da linguagem. Afinal, por falar o "inglês da rainha" é que a nigeriana consegue sobreviver socialmente. Sobre o tema, Cleave concedeu a seguinte entrevista ao Estado.

O romance revela um mundo de aparências. Como você coloca-se no papel da Pequena Abelha para compreender isto?

Gosto de usar a primeira pessoa para contar uma história a partir de um ângulo inusitado. Mergulho na experiência de vida dos meus personagens e me obrigo a pensar segundo o ponto de vista deles, e isso às vezes durante um longo período até que uma parte do meu cérebro comece a pensar como eles. É como o método de Stanislavski de interpretação. Quando você se coloca conscientemente no lugar do outro começa a ver coisas familiares com um novo olhar. E isso lhe dá uma vida extra, que você vive em paralelo com a sua própria. É divertido - acho que é por isso que escrevo.

O que fez para pensar como uma garota nigeriana?

Muita pesquisa. Fiz dezenas de entrevistas, li muita ficção e história e analisei centenas de transcrições de entrevistas com refugiados de várias partes da África. Depois fragmentei todo o material, para permitir que ela se tornasse um ser humano novamente.

O homem hoje se tornou muito indiferente para não ver as diferenças?

Não acho que somos indiferentes ao sofrimento dos outros. Acho que, no fundo, somos todos pessoas boas, apenas tentando fazer o nosso melhor possível pela nossa família e nossos amigos. O problema é que o cérebro humano é muito flexível e se adapta à vida que é preciso viver. Assim, se vivemos uma vida urbana de classe média, por exemplo, nosso cérebro tende a ampliar diferenças muito pequenas entre nós e as pessoas que nos cercam em nossas cidades. (Por exemplo, meu cérebro atualmente está preocupado com uma discussão mesquinha com meu vizinho sobre uma cerca que dividimos). Por outro lado, nosso cérebro tende a ignorar completamente as diferenças realmente enormes entre as pessoas no mundo desenvolvido e aquelas do mundo em desenvolvimento, isso porque ele, cérebro, não necessita tomar decisões cotidianas baseadas nessas diferenças. Portanto, o que procuro, na minha ficção, é ampliar esse sistema de referências do cérebro. Tento colocá-lo numa posição em que possa ver dois povos extremamente diferentes ao mesmo tempo, onde terá que forjar uma visão de mundo que inclua ambos.

Algumas cenas triviais são grandiosas, como Pequena Abelha tomando uma xícara de chá na cozinha de Sarah.

Acho que o mundo se transforma não na mesa de negociação, ou na mesa do conselho diretor, mas em torno da mesa da cozinha. Acredito que as conversas entre duas pessoas enquanto tomam uma xícara de chá, juntas, são as mais importantes do mundo. Porque se dois estrangeiros não conseguem superar as suas diferenças conversando e se tornar amigos, como podemos esperar que nossos políticos ou nossos líderes empresariais façam esse trabalho em nosso nome? Acho que um dos perigos de viver uma sociedade altamente especializada como a nossa é o fato de delegarmos aos nossos líderes não apenas a responsabilidade por nossa segurança, mas também a responsabilidade pela nossa moralidade e felicidade. Não acredito que seja sensato esperar que nossos líderes se comportem sabiamente em nosso nome quando se trata de conseguir a paz para o mundo. Acho que nossa responsabilidade, como cidadãos deste planeta, é nos aproximarmos uns dos outros por meio de uma simples conversa que resulte numa compreensão e prazer compartilhados. Se todos nós conversássemos a nível individual, não precisaríamos que nossos líderes negociassem tratados de paz no plano global. Portanto, sim - acho que os momentos mais triviais, mais corriqueiros são os mais belos. Além disso, para muitos, essa é a maneira mais prática de nos envolvermos com a vida real! Duvido que chegará um dia em que precisarei tomar uma decisão que afetará o destino de milhões. Por outro lado, faço chá para as pessoas diariamente - e assim eu posso também dar a minha contribuição.

O jornalismo literário americano se parece muito mais com uma ficção e se inspira no arco narrativo clássico. Você acredita que ainda existirá lugar para esse tipo de narrativa literária consciente? Como você acha que essa narrativa literária deve desaparecer ou mudar quando se trata de fazer jornalismo?

Bela pergunta. Penso que, quanto melhor é o jornalista, menos ele tentará escrever relatos reais que se comparem com formas de literatura. A ficção literária é popular precisamente porque é muito mais clara e mais simples do que a vida real. Um bom romance existe para propor ao leitor uma profunda questão moral, removendo grande parte do tumulto, da desordem e da irrelevância da vida real, de modo que a questão central pode ser percebida mais rapidamente. Não é uma simulação da vida real. Assim, no romance são criadas cenas dramáticas que têm solução e consequências que podem ser diretamente detectadas na cena seguinte.

A grande ficcionista canadense Margaret Atwood disse uma vez que "a verdadeira história, no final, é cruel, múltipla e inverídica. Por que você necessita dela?" Não pergunte nunca pela história verdadeira. Na verdade, algumas das histórias de ficção que mais aprecio tratam diretamente desse abismo entre a vida real e as nossas histórias. Por exemplo, em Libra, Don DeLillo engendra uma trama tão complexa e brilhante em torno dos acontecimentos que envolveram o assassinato de John Fitzgerald Kennedy que você no final acredita que nenhum dos conspiradores sabia honestamente o que estava acontecendo, mesmo na ocasião.

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