Ninho da águia

A lembrança de uma tarde ao lado de espiões em Bletchley Park, centro de inteligência que inspirou Ian Fleming

FLAVIA GUERRA / BLETCHLEY PARK , O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h09

"Foi daqui que Ian Fleming tirou muita inspiração para criar suas histórias. Eu o conhecia, trabalhei na mesma seção que ele por muitos anos. Mas a gente mal se falava. Tudo era tão secreto. Para falar a verdade, sabíamos muito pouco sobre o que muitas vezes nós mesmos fazíamos. A gente só sabia exatamente sobre os códigos que cada um quebrava e olhe lá", contava uma saudosa senhora britânica chamada Mavis Batey enquanto a reportagem do Estado visitava Bletchley Park em finais de 2008.

Uma das centrais de espionagem mais importantes, e menos conhecidas, do mundo, Bletchley Park, 80 quilômetros ao norte de Londres, foi também o berço de um dos mais famosos agentes secretos do cinema: 007. Foi lá que o escritor Ian Flaming trabalhou nos anos de Segunda Guerra Mundial como codebraker (decifrador de códigos) e agente duplo a serviço da Divisão de Inteligência Naval inglesa.

Fleming, no entanto, morreu sem jamais ter falado publicamente sobre o período em que passou em Bletchley Park. "Silêncio é de ouro. Conversa descuidada pode custar vidas. Essas frases estavam em cartazes que víamos em vários locais durante a guerra. E realmente, naquela época, uma palavra dita sem cuidado podia ter sérias consequências. Por isso, nem Fleming, nem eu, nem meu marido, que também trabalhava em Bletchley, falávamos do que fazíamos. Só depois de muitos anos de casados é que fomos conversar sobre nosso trabalho", relembra Mavis. "Duvido que Fleming soubesse de tudo que fazia como agente. Assim como nós, não tinha acesso a todo tipo de informação. Eu volto aqui e, por meio das máquinas reais, dos documentos que vejo aqui hoje, tento criar relações com os termos que ele usa nos livros, as máquinas que criou na ficção, para tentar achar alguma pista sobre seu real trabalho como agente."

Muito distante das aventuras de seu alter ego, Fleming trabalhava em uma central mais com cara de repartição pública que de super central antiespionagem. "A gente trabalhava de cinza. Saias muito simples, camisa fechada. Nada de luxo. Nem meia-calça tinha. Era muito caro em tempos de Guerra e o salário era de duas libras por semana", conta Mavis, que, do alto de seus 101 anos, e apesar de estar mais para Vera Drake que para Bond Girl, esbanjava energia rara ao falar dos tempos de espiã. "A gente chama de From Blechtley With Love, em referência a From Russia With Love. Confesso que demorei para começar a ler o primeiro livro, em 1987, porque até então eram histórias para rapazes. Não achava que agradaria às moças."

Bletchley foi um dos tantos locais em que Fleming atuou durante a Guerra. O próprio afirmava que Bond era uma mistura de vários agentes que conheceu e com quem trabalhou. Em sua ficha, há anotações como Operação Golden Eye, um plano para manter uma estrutura de inteligência na Espanha caso a Alemanha Nazista tomasse a Inglaterra. Anos mais tarde, o autor batizaria de Goldeneye sua mitológica casa na Jamaica - onde também serviu - e daria o mesmo nome a um de seus mais célebres livros, 007 Contra GoldenEye, estrelado por Pierce Brosnan em 1995. "A gente está tentando contar para as pessoas o que de real há nas histórias de Bond. A máquina decodificadora Spektor da ficção se chama Enigma", comentou a ex-agente, que não hesitou em dar um recado ao ator Roger Moore. "Você sempre foi meu preferido. O Sean Connery era lindo, o Pierce Brosnan também. O Daniel Craig é muito fortão. Mas você será sempre a síntese do que Fleming pensava para ser o Bond."

O encontro com Moore não se deu por acaso. O eterno Bond (o que mais tempo ficou na função) era mais um dos ilustres convidados do Bletchley Park Museum naquela tarde. A central, que passou anos sobre a névoa de silêncio que a guerra deixou, tornou-se um museu que recebe milharesde visitantes e é sede de encontros de fã-clubes e simpósios.

Mavis, Moore e outros ilustres desconhecidos espiões aproveitavam a rara chance para contar o que viveram, para tietar e para, claro, tirar uma foto ao lado dos mitológicos "Bond cars" Dragon Tank, de Dr. No, Lotus Esprit, de Viva e Deixe Morrer…

Uma verdadeira Bondland. Moore visitou e aprovou. "É como visitar um set de filmagens. Só que real. O trabalho dos milhares de espiões que aqui trabalharam por tantos anos tem de ser valorizado. Eles são tão heróis de guerra, ou até mais, que qualquer soldado de frente de linha", comentou o ator que, aos 84 anos, acabara de lançar sua biografia e, pelo menos na Inglaterra, será eternamente Bond. "É verdade que eu sou um pouco 007 fora da tela também. Principalmente quando o assunto é humor", brincou ele, que assistiu e aprovou seu atual substituto. "Todos querem saber o tempo todo o que achei do Daniel Craig. Acho bom. Leva jeito. É um 007 diferente do que fui, do que o Connery foi, mas é perfeito para os dias atuais. Tem um pouco de todos."

De fato. Nem de longe o fortão Craig esbanja o mesmo sarcasmo e malícia dos Bonds de outrora, quando cenas de ação se parecem com trabalho de escola diante da perfeição técnica de filmes como Quantum of Solace, a mais cara Bond-story da História, e Operação Skyfall, o novo filme da saga, que estreia no próximo dia 26 de outubro com Graig no papel e a participação de Javier Bardem. Quem preferir o "mundo real", pode visitar Bletchley. "E entender até que ponto era tudo ficção. Ou descobrir as reais conexões entre a criação de Fleming e a verdadeira Guerra. Nenhum fã vai sair desapontado", garante Moore.

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