Tasso Marcelo/AE
Tasso Marcelo/AE

Ninguém segura o Catra

Um dia na vida do funkeiro que vive sob os preceitos de uma espécie de ''seita própria''

Cinthia Gomes, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2010 | 00h00

Ao abrir a porta, Sílvia surpreende-se com o fato de a repórter cumprimentá-la pelo nome antes de serem apresentadas. "Como você sabe meu nome?", estranha. A repórter explica que ela é um hit da internet, sendo personagem de um vídeo que já teve, até o fechamento desta edição, mais de 600 mil acessos. "Ah, esse vídeo, eu detestei." Por quê? "Eu só não sabia que tudo aquilo ia ficar na internet, mas não tem nada errado, não, nossa vida é aquilo mesmo." Por "aquilo mesmo" entenda-se sua vida matrimonial com Wagner Domingues da Costa, mais conhecido como Mr. Catra, um dos maiores nomes do funk nacional, e os 9 filhos - 3 dela e 6 de outras mães - que moram com eles. E mais 11, que moram com as respectivas mães, totalizando 20 filhos (na verdade, o 20º ainda está em gestação, na barriga de Raianny). E mais três (ou oito) mulheres. E mais uma média de 18 shows por semana. E mais um amontoado de questões polêmicas, que a reportagem do C2+Música tentou entender durante um fim de semana com Mr. Catra.

O vídeo da discórdia - ou do sucesso - são trechos de um piloto para uma série de TV chamada 90 Dias com Catra, um dos mais acessados no YouTube. O projeto é da Melin Vídeos. "A ideia é mostrar o cotidiano de uma pessoa que tem algo particular, nos moldes da série americana produzida sobre o Snoop Dog", diz João Pádua, que assina roteiro, direção de externa e fotografia. Ele conta que conheceu Catra em 2004, na França, e que o projeto do reality show surgiu no ano passado. Desde então, eles têm filmado o dia a dia do cantor e já tem cerca de 20 horas de material bruto. As negociações seguem para a transmissão da série num canal de TV por assinatura e também para a realização de um documentário.

Wagner nasceu no dia 5 de novembro de 1968. Foi criado por uma família com alto poder aquisitivo, na casa em que sua mãe, Elza, trabalhava, estudou em boas escolas do Rio, como o Colégio Batista Shepard e o Colégio Pedro II, é poliglota, atuou como líder estudantil, iniciou o curso de Direito, foi vocalista de uma banda de rock chamada O Beco, até que, em meados dos anos 1990, ele experimentou o funk.

Catra nasceu com o sucesso dos dois primeiros CDs - O Bonde dos Justos (1995) e O Segredo do Altíssimo (1996), lançados pela Zâmbia Records. Com isso, chamou a atenção de duas grandes gravadoras, a Warner e a Universal, com as quais viria a gravar os álbuns seguintes. Hoje, Mr. Catra faz shows todos os dias - aos fins de semana, chegam a ser quatro por noite - com cachês que variam de R$ 2,5 mil a R$ 5 mil por apresentação. Mas, a julgar pela multiplicidade de participações e parcerias que já realizou, conclui-se que Catra não é funkeiro, ele está funkeiro. Só este ano, o cantor gravou com Carlinhos Brown, participou do recém-lançado DVD Hyldon ao vivo, em que divide os vocais com o anfitrião no pot-pourri Velho Camarada / Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda, e está se preparando para lançar um CD de samba. "Eu gosto de fazer música. Quem faz música tem uma bênção". Ele também está sendo sondado para se apresentar no Rock in Rio 2011.

Mr. Catra costuma fazer uma turnê por ano na Europa. Numa dessas viagens, conheceu Israel e entrou em contato com o judaísmo. Aproveitou para compor um funk louvando a Deus em hebraico, em parceria com MC Sapinho, brasileiro e judeu que vive lá. Mas não confirma sua conversão ou mesmo que siga o tal judaísmo salomônico, que legitimaria a poligamia pelo exemplo do Rei Salomão, que teve 700 mulheres. "Quem acredita em Deus não tem religião", justifica. Também nega que viva com nove mulheres, conforme corre "à boca pequena". "Se eu tivesse tempo de amar 9 mulheres, amaria. No momento, tenho quatro amores."

O núcleo familiar de Catra é na casa de Silvia, em Vargem Grande, no bairro de Jacarepaguá, no Rio. A maior parte de seus filhos mora lá, para onde ele retorna todos os dias, e também é onde se realizam as festas de Natal e Ano Novo, reunindo toda a família - incluindo as mães dos outros filhos. Wagner e Silvia estão juntos há 15 anos. Ela sabe e não se incomoda com a existência de outros "amores" na vida do marido. E acolhe os filhos de outras que ele leva para casa como se fossem dela. "Ele pode até dizer que tem várias mulheres porque ele é homem, mas o papel de mulher é muito sério. Ainda não encontrei ninguém melhor do que eu, alguém com quem até pudesse dividir um pouco do meu trabalho, porque eu tenho muita coisa pra fazer", diz Silvia, que é madrinha de Mariáh, a 19.ª filha de Catra (com Eloá), recém-nascida. "Ela já era minha filha porque é filha do meu marido, agora sou mãe duas vezes."

Alan tem 20 anos e é o filho mais velho de Catra. Criado pela avó e pela mãe, só há dois anos conheceu o pai, de quem já era fã. Foi morar com ele, na casa de Silvia, e agora segue seus passos: com o nome artístico de Alandim, ele começa a gravar seus primeiros funks. Participa dos shows do pai e está preparando um trabalho com o filho do cantor Marcelo D2.

As irmãs Tamires, de 18 anos, e Tamara, de 17, desempenham funções administrativas. Tamires recebe os cachês e Tamara cuida das contas. Os três têm orgulho do pai e afirmam que Catra e Wagner têm personalidades bem diferentes. "O Catra é aquele cara loucão, que canta funk. O Wagner é o pai de família, que dá bronca quando precisa, que pega no pé na escola. Ele sempre fala que o Catra é um personagem e que ele quer respeito", explica Tamires, que pretende cursar Administração de Empresas e trabalhar no escritório de Catra. Tamara é casada, mora na mesma casa com o marido, e conta que o pai não costuma escutar funk. Ouve Tim Maia, Bob Marley, Bebeto.

Na noite de sábado, 30 de outubro, Catra cantou em três bailes. No palco, a sinergia com o público é enorme. Ao som da batida do funk ele começa entoando o Salmo 23 - "O Senhor é meu pastor" - e o público responde - "E nada me faltará". Em seguida, anuncia: "Vai começar a p....!" Toda a plateia delira e canta seus refrões. Uma senhora sexagenária sobe ao palco, beija e abraça Mr. Catra, que improvisa uma rima para a fã: "Agora vou mostrar pra vocês/O que é sexo com alegria/ Quero pedir, por favor/ Uma salva de palmas pra titia." No camarim , ele recebe as fãs. Uma delas chora e pede para trabalhar com ele. Catra tira fotos, conversa e deixa a cidade às 7h da manhã, de volta para casa.

FILOSOFIA CATRIANA

1. "Não é o demônio que usa a pessoa, é a pessoa que usa o demônio. As pessoas têm que parar de se escorar no mal. A pessoa mata, rouba, estupra e fala que é porque tava doidão. Eu já fiquei doidão de tudo, tudo que você possa imaginar, e nunca me deu essas

vontades."

2. "A sociedade fala que a mulher tem que ter um homem só e que o homem só tem que ter uma mulher, mas essa sociedade não me responde por que existe prostituição, menor

abandonado e mãe solteira."

3. "Eu sou um cara de muitas mulheres, mas das mesmas muitas mulheres."

4. "Quer romance, leia um livro. Quer fidelidade, compra um cachorro. Quer amor, volta pra casa da mamãe, vagabundo!"

5. "Eu trabalho pelo pão de cada dia, eu não sou rico, sou próspero. Prosperidade é você viver mil anos e nunca passar necessidade."

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