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Ninguém casa errado

Dona Alzira agora está com esta conversa:

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2014 | 02h08

"Ninguém casa errado."

Logo ela, há tanto tempo engarranchada no estrupício conjugal de nome Walter. Só pode ser mais uma das teorias que volta e meia ela produz, quase sempre na contramão do bom senso.

Uma delas, ao menos, já contei a você: a de que escudos de eucatex neutralizam ataques de tarados munidos com pistolas de raio laser vermelho. Mandou fazer um reforçado. "Vem! Vem!", desafiava a dona Alzira naquela fase em que julgava ver tarado à espreita em cada canto. Ficou decepcionada com o fato de que, tendo feito a despesa, jamais sofreu um ataque que a justificasse. Quanto ao raio laser do tarado, vermelho ainda por cima, bem, este problema não é da minha terapia.

Quando estava no auge o "hippismo" (assim dizia ela), a boa senhora me veio com outra teoria: hippie genuíno, só se tivesse feito formação em três estágios. Primeiro, no clima barroco de Ouro Preto; em seguida, "naquela praia baiana"; por fim, "quando já está bom na coisa", Londres ou São Francisco. "Licenciatura, mestrado e doutorado", pensei com o meu zíper. "Como é que a senhora sabe disso?", indaguei.

"O filho da minha amiga entrou para hippie", explicou.

Liberal - ou, como prefere dizer, "para a frente" -, nem por isso dona Alzira vai aceitando qualquer modernidade. Até absorveu a moda da tatuagem, mas acha que ninguém deveria se deixar estampar sem um planejamento, para evitar que a superfície corporal seja ocupada, ao sabor do momento ou da cannabis, por figuras e estilos que não combinem. Tatuagem, acha ela, é coisa que requer um plano diretor.

Agora, essa história de que ninguém casa errado. Como assim, dona Alzira? Se casou, ela explica, é porque precisava daquilo, ainda que aquilo fosse um remédio amargo para mal maior. Exemplo? O playboy dominicano Porfirio Rubirosa, que precisava de um reforço de caixa quando, nos anos 50, se casou com a milionária americana Barbara Hutton. Naquela sociedade matrimonial, entrou com apenas um dote, quase tão legendário quanto seu portador, a respeito do qual a decência recomenda não entrar em detalhes.

E não se poderia dizer que aquele seu casamento, o de número 4, foi mal sucedido: ao se separar de Barbara, 53 dias mais tarde (o casal terá comemorado algo como Bodas de Isopor), o fugaz marido saiu levando 3,5 milhões de dólares, além de um avião e uma plantação de café na República Dominicana. A Barbara deu de bom grado. Considerando-se os dotes, indaga a dona Alzira, você diria que o Rubirosa e a Barbara se casaram errado?

É verdade, ela admite, que muitas histórias terminam menos bem - motivo é o que não falta, inclusive motivo nenhum. Tem marido ou mulher que logo se dá conta do mau passo, e sem tardança aciona o comando de ejeção que deveria equipar os leitos conjugais. Não necessariamente para ejetar o equívoco estendido ao lado. Há casos em que mais vale irmos espontaneamente àquela parte - desde que, é claro, a criatura não nos acompanhe.

Tem gente, também, prossegue a minha amiga, que por cegueira, conformismo ou falta de meios, dá um suspiro e se instala no desconforto de um sofrimento sem saída. Liga o dane-se (o verbo não é bem este), ainda que isso possa significar "dane-me". Chego a lamentar não ter fortuna para bancar a separação de cônjuges assim encalacrados.

A dona Alzira, acho eu, se encaixa nesta última categoria. Tendo cumprido bodas de tudo quando é pedra e metal, ela me dá a impressão de que entregou os pontos. Tudo piora, suspira ela, e até da geladeira saca ilustração: não é que o queijo Roni, outrora cremoso, deu agora de se apresentar massudo como qualquer frescal? Vinda do tempo em que casamento tinha que ser vitalício, a dona Alzira não terá tardado em descobrir aonde fora amarrar seu romântico burrinho de moça à espera do Príncipe Encantado.

Orgulhosa, nunca a vi queixar-se de haver desposado sapo em vez de príncipe. Mas já me confidenciou que sob aquele teto vigora, faz tempo, o que meu amigo Edson Nery da Fonseca chamava de "casamento josefino", em referência ao peculiaríssimo regime conjugal vigente no lar do carpinteiro José, e mais não digo. Dá pra fazer uma ideia do que foi a fase anterior, pois a dona Alzira se apressou em acrescentar, enfática: isto não é uma reclamação!

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