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CRÍTICA: 'Nine' transforma crise criativa em inventividade

Musical de Charles Möeller e Claudio Botelho trabalha com talentos distintos

Ubiratan Brasil , O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2015 | 02h05

Poucas vezes uma crise de criatividade foi tão produtiva - a partir de um surto dessa espécie, Federico Fellini elaborou uma de suas obras mais importantes, 8 ½ (1962), que, por sua vez, inspirou um musical, Nine (1982), que ainda foi levado ao cinema com o mesmo título, em 2009. Finalmente, o palco do teatro Porto Seguro recebe a contribuição brasileira, Nine - Um Musical Felliniano, que traz a assinatura dos competentes Charles Möeller e Claudio Botelho, e cuja temporada se encerra neste domingo, dia 9.

A ideia original de Fellini é o ponto de partida para todas as ramificações: famoso cineasta, Guido Anselmi é saudado pelo trabalho criativo, mas, neste momento, ele vive momentaneamente bloqueado. Na luta para recuperar o vigor mental, Guido liberta suas fantasias, temores, dores e desejos ao unir real e imaginário, entrelaçando personagens em carne e osso (como sua mulher) com os resgatados pela memória afetiva (a mãe, a musa, a amante).

Essa dissociação da realidade abre as portas para que cada encenador/diretor possa exibir a extensão de seu talento. E, se a versão cinematográfica de Rob Marshall peca pelo excesso, a nacional de Botelho e Möeller traz verdadeiros achados. A começar pela escalação do elenco, que une talentos distintos, como a veterana Beatriz Segall e a estreante Carol Castro, mas sem perder o diapasão. Esse é um importante detalhe, pois viagem sentimental de Guido vai levá-lo tanto ao passado, quando se revê criança ao lado da mãe, como explicita os diversos tipos de mulheres com quem conviveu, variedade que pode levar à conclusão de que nenhuma está à sua altura.

Para esse papel tão delicado como marcante, a escolha foi acertada - nascido na Itália mas há anos vivendo no Rio, Nicola Lama tem o sotaque ideal. Mas isso é apenas um detalhe se comparado com seu talento. Nicola entregou-se, de fato, ao papel, saltando sem rede na comédia, mesmo que, em determinadas cenas, ameace cair na caricatura e, com apenas um gesto ou inflexão de voz, consiga escapar com louvor. Com um histórico em musicais (Mágico de Oz, Violinista no Telhado), Nicola Lama consolida-se agora como um ator de respeito.

Entre as mulheres, impossível não destacar Malu Rodrigues, surpreendente em um papel lascivo, mas favorecido pela atitude com que une em seu personagem a inocência e o erotismo. De quebra, exibe uma nova e adorável interpretação vocal, atingindo notas absolutas.

A montagem de Charles Möeller comprova sua posição de um dos mais cuidadosos entre os encenadores de musicais da atualidade. A ausência de cenários ostentosos ressalta a aposta na variação das interpretações que, apesar dos tipos distintos, são homogêneos na qualidade.

NINE, UM MUSICAL FELLINIANO

Teatro Porto Seguro. Alameda Barão de Piracicaba, 740. Tel.: 3223-2090. 6ª e sáb., 21h; dom. 19h. R$ 80/ R$ 200. Até 9/8.

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