Nikolai Gógol e Arthur Miller, em diálogos teatrais

Peças, que são marcados pelo realismo e pela crítica social, ganham edição simultânea

Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo,

06 de dezembro de 2009 | 05h00

O escritor russo Nikolai Gógol (1809-1852) é o parente intelectual mais próximo do dramaturgo norte-americano Arthur Miller (1915-2005). A observação provocaria escândalo na boca de algum acadêmico se proferida tempos atrás, mas não agora, quando são lançados simultaneamente dois volumes sobre a obra teatral de ambos, Nikolai Gógol - Teatro Completo (Editora 34, tradução de Arlete Cavaliere, 410 páginas, R$ 52) e A Morte de Um Caixeiro Viajante e Outras Quatro Peças, de Arthur Miller (Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 216 páginas, R$ 38). A propósito: o texto que examina o parentesco entre Gógol e Miller ainda não foi traduzido, mas pode ser adquirido pela internet, acessando o site da AcaDemon (www.academon.com) e solicitando o ensaio analítico de número 66834 (três páginas, 740 palavras, US$ 26,95).

 

Em síntese, o que diz o autor do ensaio é que a busca da verdade e sua natureza é o tema central tanto de O Nariz (1836), de Gógol, transformado na ópera homônima (1930) de Shostakovich, como de As Bruxas de Salém (1953), peça incluída no livro de Arthur Miller, que traz, entre outros, seu primeiro texto escrito para teatro, O Homem de Sorte (1944), além das peças já mencionadas e mais Todos Eram Meus Filhos (1947) e Um Panorama Visto da Ponte (1955). O ensaio também pretende demonstrar que parte dos temas abordados por Miller em As Bruxas de Salém - histeria de massa, falsas acusações, culpa, execração pública e perda de posição social - foram tratados num registro satírico por Gógol um século antes, antecipando não só a linguagem de Miller como a escola realista no teatro, papel precursor jamais negado ao autor de O Inspetor Geral (1836), sua peça mais popular. Ela divide o livro com outras quatro, encenadas com menor frequência - Os Jogadores, O Casamento, À Saída do Teatro Depois da Representação de Uma Nova Comédia e Desenlace de O Inspetor Geral.

 

Miller, como destaca no prefácio do livro o jornalista e dramaturgo Otavio Frias Filho, traduziu no palco as tensões de uma época marcada pelas disputas entre o império norte-americano e soviético, assumindo ao mesmo tempo um compromisso político e ético com a comunidade. Gógol foi igualmente marcado por um dilema moral, o de criticar a sociedade russa durante o regime totalitário do czar Nicolau I e curvar-se diante da ortodoxia religiosa - em seu delírio místico, Gógol, pressionado por um padre, abjurou sua criação literária, atirando ao fogo o manuscrito da segunda parte de Almas Mortas.

 

O que Gógol não consegui queimar chegou até nós como uma poderosa crítica ao Estado e uma proposta de revitalização da linguagem dos palcos, então controlada pelo governo czarista, que tinha hegemonia sobre a atividade teatral na época de Nicolau I. Apesar do czar, da censura e da sua polícia secreta, três outros dramaturgos se destacaram ao lado de Gógol: Alexander Griboedev (1795-1829), Alexander Pushkin (1799-1837) e Ivan Turguêniev (1818-1883), pioneiro na abordagem psicológica no teatro. Todos sugeriram protótipos do que seria o homem russo médio do século 19, mas Gógol foi o que chegou mais perto, ao criar seu Macunaíma das estepes, Khlestakóv, picareta que viaja de aldeia em aldeia em O Inspetor Geral. Confundido com um inspetor a serviço do czar, o farsante chantageia políticos corruptos de um vilarejo até ser desmascarado por eles no final da peça, quando uma carta revela sua face verdadeira - ou falsa, dependendo do ponto de vista dos prejudicados.

 

O vendedor ambulante criado por Miller em A Morte do Caixeiro Viajante, Willy Loman, é o correspondente trágico do engraçado "inspetor" de Gógol. Loman, o veterano de 63 anos, também tem sonhos de grandeza e é confrontado com os erros do passado. Para ambos, Loman e Khlestakóv, que vivem numa sociedade de aparências, não resta escolha senão improvisar estratégias de sobrevivência e garantir a felicidade futura - que, no caso de Khlestakóv, significa encontrar outra aldeia de otários e, no de Loman, conseguir transferência para um novo território, renegando um passado de traição conjugal e fiasco profissional.

 

É possível também comparar o caixeiro de Miller com o modesto funcionário Akaki Akakievich de O Capote (1843), conto de Gógol adaptado para o teatro. Tanto um como outro parecem afetados pela perda de status como pela falsa esperança de um futuro melhor. Akaki ganha nova identidade e respeitabilidade ao vestir um capote novo, que ostenta com orgulho, mas sucumbe ao vazio existencial ao descobrir a efêmera felicidade dos bens materiais. Loman, o homem comum tomado por um surto megalômano, volta para o Brooklin após uma viagem de negócios fracassada. Incapaz de ganhar a vida e sem encontrar alternativa além do suicídio, ele provoca um acidente com seu Studebaker para garantir o dinheiro do seguro à família. É o Lear americano, como disse com justa razão a escritora Joyce Carol Oates.

 

De fato, a exemplo da grande tragédia clássica, são sempre os filhos que acabam herdando a culpa dos pais nas peças de Arthur Miller. A relação entre pai e filho é problemática tanto em A Morte do Caixeiro Viajante - em que Loman é desacreditado pelo primogênito Biff, desiludido com o adultério e o discurso hipócrita do pai - como em Todos Eram Meus Filhos (All My Sons), em que o filho de um fabricante de peças volta da guerra apenas para descobrir, devastado, que o pai vendeu pistões de ar defeituosos para a Força Aérea americana, provocando a morte de 21 pilotos. De uma só vez Miller destrói o mito da família americana como núcleo próspero e da pátria como refúgio. Miller, seguindo os passos de Gógol, estava mesmo empenhado em atacar as instituições.

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