'Night', o preço por ousar demais

O Último Mestre do Ar, de Shyamalan, propõe uma conversa que precisa se completar no olhar do espectador

Crítica: Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2010 | 00h00

Saga. Nada é conclusivo neste primeiro episódio da tetralogia      

 

 

 

 

 

Efeitos especiais e ideias podem conviver no cinema. Um filme, qualquer filme, propõe um conversa que precisa se completar no espectador. Portanto, a falta de ideias pode estar muito bem no olhar de quem assiste a O Último Mestre do Ar, de M. Night Shyamalan. Deve ser um recorde - a quantidade de equívocos que se escrevem sobre "Night", como ele prefere ser chamado, já virou folclórica. Tudo porque Shyamalan arrebentou com O Sexto Sentido e, depois, não repetiu a bilheteria nos filmes seguintes. É o preço de ousar demais. Como todo autor, ele se repete - repete temas -, mas suas histórias não poderiam ser mais diversas. Se estivesse fazendo O Sexto Sentido 2, 3, 4, etc., talvez batesse recordes até hoje.

 

 

 

O Último Mestre do Ar, adaptado de um animê, fracassou nos EUA, como já haviam fracassado outros filmes de Shyamalan, A Vila e A Dama da Água. Os paulistanos talvez lavem a alma do cineasta. Havia gente pelo ladrão para ver o filme em 3-D no Shopping Bourbon, no domingo. É até possível que boa parte daquele público tenha ficado decepcionada - afinal, Último Mestre foi concebido como parte de uma tetralogia. Nada é conclusivo neste primeiro episódio. As histórias abrem-se em espiral, definem-se as grandes linhas dramáticas. Haverá o 2 e 3 para levar a saga adiante? O 4, para concluí-la?

 

É a história do Avatar, garoto que desempenha um papel decisivo no equilíbrio dos quatro reinos que compõem o universo - o fogo é o mais belicoso, o ar é o mais espiritualizado e existem água e terra. Na trama de Shyamalan, o Avatar ficou desaparecido por um século, durante o qual o reino do fogo rompeu o equilíbrio do mundo por meio de uma cruzada expansionista. E por que o Avatar desapareceu? Por medo da pesada responsabilidade que o cargo impõe. O Avatar, tradicionalmente, é um solitário que abdica da família para abraçar a causa da humanidade. Troca o amor de um - de uma - pelo de todos. É um personagem voltado ao sacrifício, e ele resiste. Seria interessante comparar, neste sentido, o Avatar de Shyamalan com o de James Cameron, e com os heróis de Matrix e A Origem.

 

Assim como são quatro os elementos, são quatro os protagonistas. O filho do rei do fogo, renegado pelo pai, e dois integrantes - um casal de irmãos - do reino da água, mais o Avatar. Possuir esse último garante o poder e o príncipe deserdado sonha aprisioná-lo para voltar a ter o respeito do pai. Todos esses personagens - e também o rei do fogo e seu ambicioso general - brigam pelo poder, mas esse não é o tema essencial para Shyamalan. Havia disputas pelo poder em Corpo Fechado e A Vila, mas o tema que percorre toda a obra do autor é a família. Como Sinais, O Último Mestre conta uma saga da orfandade. Como A Dama da Água, é uma reflexão sobre como contar uma história.

 

Todos os protagonistas, de alguma forma, são órfãos (o príncipe, de um pai vivo). O Avatar e o casal de irmãos não completaram sua formação. Todos se ajudam e até o príncipe tem de proteger o Avatar, mesmo que seu desejo consciente fosse outro - o problema é que, se o perder, ele próprio estará perdido para sempre. As relações são assim complexas, e inconclusivas, o que é anticlimático, daí, talvez, a reticência do público. Outro desafio é que Shyamalan usa o 3-D para discutir espiritualidade e contemplação. Ambos são processos - incompletos como a formação dos heróis. O sacrifício da princesa, que dá a vida para restabelecer o equilíbrio entre ying e yang, é a culminação deste primeiro episódio. Será uma pena se o cinéfilo não se entregar à magia do novo Shyamalan.

 

 

 

 

 

O ÚLTIMO MESTRE DO AR

Nome original: The Last Airbender

Direção: M. Night Shyamalan

Gênero: Aventura (EUA/2010, 103 minutos)

Censura: 10 anos

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